Olá, caro cinéfilo! Testando. Aqui você irá encontrar a coletânea de textos escritos pelo aspirante a crítico de cinema Wanderley Caloni, criado e mantido desde 2010. São mais de 1500 textos sobre filmes e séries, de todos os gêneros, épocas e estilos. Apenas digite no sistema de busca algo relacionado ao filme que procura e digite a tecla Enter, ou use nosso avançado (e pesado) sistema de busca para programadores. Se quiser mais conteúdo sobre cinema clique neste post e verá uma lista de links úteis.

Este é um assunto recorrente quando se trata de história sobre casamentos arranjados. Esses casamentos fazem parte da cultura de alguns povos que ainda vivem de acordo com a Antiguidade. Sabe qual povo vive hoje na Europa sob tal lei? Os muçulmanos. Sim. E este é um ótimo motivo para que o diretor/roteirista Stephan Streker faça uma história que com certa sutileza, mas sem ser simplista, explora como as diferentes culturas coletivistas mandam no indivíduo mais do que seria razoável supor. Aqui há pouca música para um filme sobre o Oriente, e muito pessimismo, como se pode esperar do futuro que vislumbramos para o Ocidente. Streker nunca deixa a questão fácil demais para tomarmos um lado, mas obviamente ele está falando sobre algo mais do que aborto ou casamentos arranjados. Resta o espectador entender que a trágica história de Zahira é algo maior e mais recorrente do que os otimistas esperam.

Cristiane Oliveira, 2016

Óbvio em sua estrutura, eficaz em suavizar o título exagerado durante toda a projeção, Mulher do Pai é um trabalho delicado e sutil, mas que apetece em sua forma didática de explorar que há ainda lugares sem internet e sem comunicação com a aldeia global que se formou, e a diretora Cristiane Oliveira está aí para explorar o amadurecimento de uma jovem nesse ambiente, com detalhes visuais em uma história onde seu pai é cego. Com o uso de símbolos gritantes (como a janela que se abre para o sol, invisível para seu pai) e diálogos pedestres, a experiência deste estudo de personagem fica mais na sua superfície embutida de regionalismo e anacronismo, possíveis apenas porque, como já disse, ainda há lugares isolados da nossa tribo internética. Ainda bem. Do contrário, filmes como esse não seriam mais possíveis de serem entendidos.

Isabel Coixet, 2015

Juliette Binoche se transforma completamente em uma americana aristocrata (vinda da França, até pelo nome) e que sai em busca de seu marido, um aventureiro que deseja mais que tudo ser o primeiro a atingir o Polo Norte e fincar uma bandeira. Ela vai a ajuda dos guias para o norte do Canadá, e o que encontra lá com certeza não era o que esperava.

James Foley, Robin Wright, John David Coles, Carl Franklin, Tucker Gates, Tom Shankland, Alik Sakharov, Allen Coulter, David Fincher, 2013

Uma nova temporada de House of Cards significa que as peças do jogo serão remanejadas para dar início a outra partida, e a história é sempre sobre o remanejamento de peças, e não a partida em si. A Netflix usa e abusa de seu formato, já que a temporada inteira foi concebida para ser assistida em sequência. Os episódios quase nunca terminam em reviravoltas, mas em conclusões. São mini-capítulos da eterna história pela busca do poder.

Patty Jenkins, 2017

Depois de uma história seríssima e enfadonha envolvendo o Homem de Aço e o Homem Morcego, agora temos… mais uma história seríssima, dessa vez envolvendo a mulher misteriosa que aparecia no filme anterior, sempre acompanhada de sua música-tema. Ela é a Mulher-Maravilha, em um filme que não é lá essas maravilhas. Mas agora, pensando bem, eu não sei se o título de “Mulher-Maravilha” serve para esta versão asséptica e ultra-estilizada de uma das poucas heroínas solo. Eu sou mais a Lynda Carter, sua fantasia colorida e sua voluptuosidade honesta.

Eleanor Coppola, 2016

Estreia da esposa de Francis Ford Coppola, Eleanor Coppola, na direção e roteiro, Paris Pode Esperar é o resultado que se poderia esperar de uma esposa de um cineasta que por décadas vive uma rotina provavelmente mais ocupada do que necessariamente prazerosa. O que nos falta em nossa vida comum às vezes é a visão de como há percalços e situações semelhantes em qualquer esfera social. Somos todos humanos, afinal de contas, e quando algo vem em exagero, a sutileza é que falta. A filha dos dois, Sofia Coppola, já havia dado o recado inúmeras vezes em seus filmes. Aqui falta o objetivo, mas sobra sensações. Sobretudo gastronômicas. Diane Lane está confortável no papel de protagonista de uma viagem que parece querer tornar seus personagens meros espectadores de como a vida pode ser maior. A comida e a viagem pode encantar alguns, ainda mais os mais sonhadores, que não pararam para pensar que tudo isso parece um vídeo publicitário de uma agência de viagens. Um vídeo muito bem feito, aliás.

Noémie Saglio, 2017

Se você gosta de todas as comédias francesas, é porque talvez não tenha assistido o suficiente. Se bem que essa aqui se sai bem imprevisível, pois apresenta Juliette Binoche no elenco. O que você não espera no trailer é que ela está completamente perdida no seu papel, e sua parceira na história, Camille Cottin, duplamente perdida por causa do papel ingrato que lhe deram. Imagine apenas o seguinte: ela trabalha em uma empresa que fabrica aromas, ela anuncia sua gravidez e, ato contínuo, é convidada a participar de seu projeto mais ambicioso, com um nariz de uma mulher completamente afetada por hormônios. Se esse tipo de piada nonsense é sua praia, e você não se importa de assistir filmes com personagens antipáticos, talvez consiga se divertir uma ou duas vezes.

Nick Kovacic, 2016

Decanted é um documentário morno que cheira a conteúdo publicitário disfarçado de filme. Ele conta a história, ou passa por cima, de vários empreendedores, seu passado e seu prospecto da próxima colheita. Acompanhamos junto deles, de uma colheita a outra, para onde vão as uvas, como elas são tratadas, como é feito o leilão das garrafas e a criação de um novo rótulo: italics. Não, não estou sendo pago para divulgar a marca. Mas se você pensou isso, então deve saber como me senti ao assistir ao filme.

James Foley, Robin Wright, John David Coles, Carl Franklin, Tucker Gates, Tom Shankland, Alik Sakharov, Allen Coulter, David Fincher, 2013

House of Cards estreia novamente na Netflix em seu formato de praxe, com tramas interligadas que irão necessariamente desencadear no plano de dominação da família Underwood. Vemos uma breve e eficiente recapitulação de toda a saga e logo vamos nos acostumando novamente a ver os personagens se digladiado por um pouco mais dessa droga viciante que é o poder.

John Lee Hancock, 2016

Esta é a história do primeiro fast-food do mundo, o famigerado McDonald’s, ou a história de como uma rede de restaurantes se torna um império imobiliário. Todos os eventos baseados em fatos reais está disponível em “The Founder”, ou a péssima tradução “Fome de Poder”, com um tom excessivamente dramático e com a alma de um Michael Keaton que desde Birdman parece usar seu ego fora do controle para papéis megalomaníacos.

François Ozon, 2016

“Frantz”, de François Ozon (Swimming Pool), é quase um remake de “Broken Lullaby”, de um dos diretores clássicos do Cinema, Ernst Lubitsch. Lubitsch, se dizia, possuía um toque especial: ele ambientava seus personagens em um mundo peculiar, diferente do real, mais metafórico e com uma certa dignidade que falta ao espírito humano quando se fala em mundo real. Ozon parece também ter seu próprio mundo, mas diferente de Lubitsch, ele usa uma certa ironia e uma certa maldade para atingir, através de uma visão honesta e ligeiramente exagerada, o quanto é a nossa percepção da realidade que a cria, e se a verdade é uma moeda de tão alto valor quanto se diz por aí. Quando até um padre avalia as ações não através da verdade, mas através de um aspecto mais utilitário (ainda que moral), é necessário rever essas questões durante uma história familiar que ultrapassa de longe qualquer drama que você esteja acostumado a ver de Hollywood. “Frantz” ainda é um filme que aproveita o p&b clássico dos filmes de época para evocar um novo significado em uma Alemanha e França pós-guerra onde as feridas ainda estão abertas, e onde a felicidade parece que ficará por um tempo suspensa na escuridão da melancolia.

Justin Simien, Nisha Ganatra, Tina Mabry, 2017

Esta é uma série Netflix que fez sua lição de casa e está aproveitando a onda de discussões sobre racismo para inserir um trabalho que tenta fazer o espectador pensar em quanta besteira os militantes das minorias conseguem discutir ao mesmo tempo.

Melissa Dullius, Gustavo Jahn, 2016

Muito Romântico pode ser o que você quiser, menos romântico. Ele chega a ser anti-romântico. Ele também é anti-conhecimento, já que apresenta um casal de “artistas” que fazem “arte”, desde que “arte” seja “faça o que você quiser e chame de arte”. Eles estão indo para a Alemanha de navio cargueiro, o que poderia ser romântico. Mas que no filme vira apenas mais uma forma de categorizar experiências, assim como a lista interminável de palavras e expressões faladas no começo do filme que querem dizer exatamente a mesma coisa que uma sequência interminável de fotos da vida do casal: nada. E nada é o jogo deste filme, que evita qualquer narrativa minimamente coerente e tenta poetizar a vida negando-lhe significado.

Ridley Scott, 2017

É muito bom poder assistir um terror espacial novamente. Reviver o pouco do brilho da tripulação original de Alien. Eu faria isso facilmente pela vida toda. E depois do infelizmente medíocre Prometheus, é possível quase perdoar as pequenas falhas de “Alien: Covenant,”, a segunda aventura dessa nova fase que pretende se estender pelo menos mais um episódio.

Arab Nasser, Tarzan Nasser, 2015

Degradê é um exercício de estilo e técnica impressionantes que utiliza a desculpa da guerra e da zona de conflito do Oriente Médio para realizar uma história que começa descompromissada e que aos poucos vai gerando tensão. Se considerarmos que ela se passa quase praticamente dentro de um salão de cabeleireiro com cerca de dez mulheres, cheio de espelhos (dificuldade técnica) e que não há em nenhum momento um respiro de alguns segundos, este é um feito impressionante. Contudo, se mantendo quase sempre na superfície dos temas discutidos entre elas, é frustrante ver como uma história tão bem contada não oferece nada minimamente instigante.

Philippe Falardeau, 2016

Rocky Balboa foi um personagem inspirado pelo lutador médio-pesado Chuck Wepner. Agora, que Chuck Wepner foi inspirado por Rocky Balboa faz parte da divertida descoberta em Punhos de Sangue, que volta a se inspirar em Wepner, dessa vez contando sua própria vida e como ela foi afetada pelo Cinema. Quatro roteiristas e o diretor Philippe Falardeau recontam a fábula sobre os filmes de boxe que obviamente nunca são sobre boxe com uma certa reverência e grande competência técnica, principalmente no tom pseudo-documental da câmera e da fotografia granulada, fora uma direção de arte e figurino criativos em usar o exagero dos anos 70 para pontuar isso ao espectador. Porém, é Liev Schreiber como Wepner que leva o filme nas costas, seja pelas suas inspiradas falas (Schreiber participou do roteiro), pelo modo de dizê-las ou simplesmente pela presença de cena em uma encarnação que nos faz ver este filme de maneira leve e ao mesmo tempo um tanto depressiva. Perto do final não sabemos ao certo quantos golpes mais iremos aguentar, diferente do muito mais resistente Rocky Balboa e, claro, Chuck Wepner.

J.C. Feyer, 2017

O Rastro é um terror brasileiro tecnicamente muito bem feito, usando um estilo impecável e que lembra um terror universal, levemente americanizado com sons que assustam e cortes bruscos, mas que tenta atingir sua identidade usando como pano de fundo um filme de terror da vida real: o sistema de saúde público. Para isso, porém, o diretor J.C. Feyer e sua dupla de roteiristas, Beatriz Manela e André Pereira, irão criar uma atmosfera que lembra e/ou referenciar muitos trabalhos do gênero. Dessa forma, veremos corredores vazios e sons ao fundo, além de aparentemente sem explicação termos uma grávida entre as personagens. Da mesma forma, o uso de sons é tão importante no filme que até uma furadeira elétrica é colocada em determinado momento no recinto sem maiores explicações. Muitas coisas nesse roteiro são colocadas a esmo, e até personagens surgem no terceiro ato para justificar (mais) uma reviravolta. É usado um mecanismo arriscado próximo do final que pode deixar alguns espectadores empolgados, mas isso logo esvanece por causa da falta de amarrações no enredo que tornem toda a trama minimamente orgânica. É uma história bem-sucedida, mas como espectador, fica difícil de entender tanto inchaço nos temas e nos personagens. De qualquer forma, se o que você procura são bons sustos, O Rastro pode lhe fornecer pelo menos alguns. Nem que seja pela força do berro.

Dexter Fletcher, 2016

Este é um filme para observar a atuação de Taron Egerton em um papel muito diferente do que ele fez em Kingsman. Também é um filme para observarmos como nem sempre a persona de Hugh Jackman, como visto em Gigantes de Aço, consegue ser tão eficaz. E, de forma geral, este é um filme que repassa alguns momentos da vida real de Eddie Edwards, uma criança inglesa que parece já ter nascido com a ideia obcecada de participar das olimpíadas.

Tim Burton, 2014

Olhos Grandes é uma incursão do diretor Tim Burton por um universo já existente, o que se por um lado favorece seu lado de direção de arte a exagerar um conteúdo já determinado, por outro lado limita sua capacidade de fazer o mesmo com seus personagens, que soam irreais em uma história baseada em fatos reais.

Se você gostou de Guardiões da Galáxia é quase certeza que irá apreciar as novas aventuras do time de escanteio da Marvel, que ironicamente são os que mais lembram, com orgulho e um certo sarcasmo, a mídia original de onde vieram: os quadrinhos. Agora, se você é como eu, tenho certeza que achou que nada de bom viria de um filme onde novamente há uma equipe de anti-heróis de mentirinha formados por um guaxinim bancando o “bad ass”, um macho alfa genérico e seu objeto de desejo pintado de verde (porque é uma atriz negra), um brutamontes genérico isento de neurônios no cérebro e papas na língua e uma árvore “falante” (“Eu sou Groot”) dublada por Vin Diesel (que agora é pequena, o que torna Vin Diesel por tabela fofinho). Para você que pensa como eu, acredito que provavelmente você estará errado em julgar prematuramente uma continuação que faz de tudo dessa vez para acertar as pontas soltas desse ensaio bem-humorado dos quadrinhos para as telonas.

Cine Tênis Verde - 2017-06-23 14:17:24