Se você gostou de Guardiões da Galáxia é quase certeza que irá apreciar as novas aventuras do time de escanteio da Marvel, que ironicamente são os que mais lembram, com orgulho e um certo sarcasmo, a mídia original de onde vieram: os quadrinhos. Agora, se você é como eu, tenho certeza que achou que nada de bom viria de um filme onde novamente há uma equipe de anti-heróis de mentirinha formados por um guaxinim bancando o “bad ass”, um macho alfa genérico e seu objeto de desejo pintado de verde (porque é uma atriz negra), um brutamontes genérico isento de neurônios no cérebro e papas na língua e uma árvore “falante” (“Eu sou Groot”) dublada por Vin Diesel (que agora é pequena, o que torna Vin Diesel por tabela fofinho). Para você que pensa como eu, acredito que provavelmente você estará errado em julgar prematuramente uma continuação que faz de tudo dessa vez para acertar as pontas soltas desse ensaio bem-humorado dos quadrinhos para as telonas.

Christian Ditter, Jamie Babbit, Amanda Brotchie, Steven K. Tsuchida, 2017

Girlboss é uma história sobre os desafios do empreendedorismo. A série pega muito leve nos obstáculos, porque isso é EUA, e isso é Califórnia (se fosse no Brasil não existiria história, provavelmente). Seu núcleo gira em torno de uma menininha que, assim como quase todos nós, ainda não achou seu lugar no mundo, mas parece finalmente ter entendido o sentido da vida: tornar as pessoas felizes. E ela faz isso do seu jeito, reconfigurando roupas usadas (consideradas “vintage”), e não chama o que ela faz de negócio, mas de outra coisa. Caia na real, menina: você é uma capitalista malvadona!

Ricardo Alves Jr., 2016

Um suspense que se constrói através da inteligência do espectador, e não com dados jogados de graça. Elon, um homem bruto, aparentemente calmo, mas perdido, interpretado por Rômulo Braga (O Que Se Move) com ausência de maneirismos, está em busca de sua mulher desaparecida, que não voltou do trabalho. Madalena é fugaz, mas parece ser suficientemente sensual a ponto de hipnotizar Elon. Mas este é um filme basicamente de um homem só. Ou a sombra de um homem vagando por delegacias, hospitais, parentes e conhecidos. Ele externamente não se desespera, e permite através do seu caminhar acompanharmos um trabalho competente de edição de som, que não deixa escapar nem o que é mal ouvido em uma fábrica barulhenta, nem o que não estamos vendo (um pote de café). E o som é necessário em um filme tão escuro, onde seus personagens vivem no escuro, em salas sujas, em prédios precisando de uma reforma. Há algumas surpresas no filme, mas sua reviravolta é menos importante que todo esse suspense que não acaba.

Daniel Espinosa, 2017

Esta é uma releitura de “Alien, o Oitavo Passageiro” que parece mais realista, ou pelo menos mais próxima de nossa realidade. De toda forma, ela apresenta duas mudanças principais. Primeiro retira aquela impressão de que um alienígena está sendo propositadamente mal, já que analisa com muita propriedade que toda vida tem que matar para continuar vivendo. Segundo, não conseguindo conter o terror dentro da faceta dramática e grandiosa do enredo, o filme vai apelando pontualmente para o trash de bom orçamento, até se entregar de vez ao caricato. Isso gera surpresas na medida em que um filme decide fazer pouco dele mesmo pelo bem da brincadeira. Mas não é tanta surpresa se considerarmos que um dos primeiros diálogos cita o filme A Noite dos Mortos Vivos um clássico terror de zumbis.

Assistir filmes pode ser usado como entretenimento e fuga da realidade. E, de fato, a maioria das pessoas usa o cinema para isso (eu incluso). No entanto, como tudo na vida, esta forma automática de reagir ao conteúdo que nos é jogado para consumir não é a melhor maneira de interagir com o mundo, nem de aproveitar duas horas de lazer de sua vida.

Eduardo Casanova, 2017

Um filme necessário para os negadores da estética objetiva. Aqueles que dizem que “não existe feio” ou que tudo é subjetivo. Porém, este é um filme pesadíssimo, onde uma moça tem sua parte traseira na cara, uma menina sem olhos é mantida em cativeiro e dois deformados se amam e fazem sexo. As cenas são tão pesadas que colorir toda aquela realidade de rosa e roxo parece inevitável. Pelo menos tenta disfarçar a miséria da vida e a miséria que somos como humanidade.

Rebecca Zlotowski, 2016

Além da Ilusão é uma tentativa longa e não exatamente fascinante de juntar diferentes aspectos históricos – cinema, segunda guerra, mediunidade antes da internet – com o pretexto de certa forma referenciar tanto o cinema e sua capacidade fotográfica de arquivar/eternizar o passado, e até certo ponto parece fazer uma analogia com as estrelas (cuja luz que nos vem sempre é passado). Agora, se existem outras estrelas envolvidas – o título original do longa é Planetário – fica difícil de saber, já que os objetivos dos três personagens principais envolvidos nunca ficam claros o suficiente. Me parece até que o filme flerta com o bibliográfico sem ter nenhuma história minimanente interessante para contar. Um dos personagens, da indústria cinematográfica, de fato é baseado em uma pessoa real, mas as duas irmãs médiuns, interpretadas por Natalie Portman e Lily-Rose Depp (ilha de Johnny Depp), são uma incógnita hermética. Bonito de se ver, difícil de interpretar, fácil de esquecer.

Betty Thomas, 2000

Como você faria para mostrar ao grande público que ter uma vida boêmia pode ser algo terrível, mesmo que você se divirta no processo? Bom, 28 dias faz isso de maneira brilhante, desfocando e diminuindo direto nas cenas a qualidade dos momentos da vida em que sua protagonista, Gwen, não consegue se lembrar direito. Ela e seu namorado estão em uma festa, chegam em seu apartamento, colocam fogo em um sutiã, fazem sexo, acordam atrasados para o casamento de sua irmã, fazem um verdadeiro vexame no dia mais importante de sua vida e Gwen acaba em uma clínica de habilitação onde, contrariando os filmes mais bonitinhos sobre o tema, as pessoas não são agradáveis ou dignas de pena, mas seres humanos muito reais, que estão cansadas dessa vida que Gwen acabou de interromper.

Paco Cabezas, Tamra Davis, Michael Patrick Jann, Dean Parisot, 2016

Eis que termino a primeira temporada dessa série, e sou obrigado a dizer que quem estiver disposto a assisti-la terá que necessariamente ir até o minuto final para entender a engenhosa estrutura de seu roteiro, que consegue tornar o todo melhor que a soma de suas partes. Não que já não seja divertido acompanhar tantos weirdos por metro quadrado.

F. Gary Gray, 2017

A série Velozes e Furiosos divide opiniões. Este é o mundo fantasioso onde motoristas/mecânicos habilidosos vivem à margem do crime e realizam manobras não apenas arriscadas, mas impossíveis. E para muitos isso é demais para acreditar. Porém, uma vez que você morda a isca tende a enxergá-lo basicamente como um filme de ação bem arquitetado ou pelo menos bem executado, com personagens com mais estilo do que verossimilhança. E depois de sete filmes, o oitavo vai fácil.

Juliano Potazi, 2017

Se “Quem Somos Nós?”, o documentário sobre a religião que surgiu das conclusões erradas dos cientistas a respeito de mecânica quântica (“a mente cria a realidade”), fosse feito no Brasil, com menos sutileza e com o objetivo de vender um livro, ele seria um vídeo publicitário conhecido como “No Meio de Nós”, produzido, dirigido e escrito por Juliano Potazi, da Potazi Produções (isso lhe dá alguma dica?). Com a narração de Renato Prieto e a edição digna de um “Youtuber”, com cortes no enquadramento para acelerar diferentes entrevistados (e uma trilha sonora freneticamente enlatada), eles usarão seu apelo à autoridade e evidências anedóticas para provar que a humanidade está infestada de ETs e está em um processo de transição para um nível físico e espíritual superior. Acha que estou brincando? Você não viu ainda nada.

Hsu Chien Hsin, 2017

Este filme é como se a Zorra Total se casasse com o Porta dos Fundos e tivéssemos um retorno inocente, mas desonroso, às comédias dos anos 90 e todo o seu politicamente incorreto que fez com que Renato Aragão dizesse que Os Trapalhões hoje em dia não existiria. Se bem que o termo “politicamente incorreto” não fazia o menor sentido na época, e hoje é apenas um empecilho desastroso para a comédia em geral. Empecilho este que felizmente não existe na internet, de onde canais Porta dos Fundos se vangloria de ofender (direito deles) semanalmente alguma religião ou bandido de estimação (leia: político). De qualquer forma, o resultado é um filme divertidinho, com participações especiais que vão de Sérgio Malandro a Gabriel Totoro, passando por um personagem-coringa que quando relevado se torna hilário. As velhas coisas sem sentido dos anos 90 se incluem aí, como a polícia fazer o que quiser, como prender um monte de pessoas em um motel por 40 dias. Mas não se engane: não é um filme erótico. O pouco que tem de erotismo é broxante (trocadilho proposital?). Para alguns, as piadas devem funcionar. Para outros, deve ser broxante também.

Este é um documentário bem convencional que acompanha dois amigos que descobrem que para ser feliz menos é mais. Estamos falando essencialmente de consumismo desenfreado. Em resumo: o modo americano de viver.

M. Night Shyamalan, 2016

Este é mais um suspense de M. Night Shyamalan baseado em “eventos reais” que flerta com as possibilidades sobrenaturais de suas premissas. Mas mais “sobrenatural”, contudo, é a forma simplista com que a história é contada, como se o diretor/roteirista não se importasse muito com a verossimilhança da história que quer contar, já que, marca registrada do diretor, obviamente tratará de um tema que brinca com coisas “Além da Imaginação”.

Tom McGrath, 2017

É um alívio assistir a uma animação que não se esforça nem um pouco em ser a primeira de uma franquia, e que corajosamente atravessa todo o arco de seu herói para terminar como um “filme normal”. Além disso, dirigido com uma fluidez dinâmica alimentada por uma criatividade sem limites de seu roteiro – que usa uma chupeta da maneira mais inventiva possível – e sua direção de arte – que explora através de formas e cores os passeios deliciosos na mente de uma criança e suas aventuras – O Poderoso Chefinho é uma animação que subverte um pouco o circuito comercial e em troca recebemos uma divertida história fácil de acompanhar, e que ainda que não esteja completa e redonda do começo ao fim, empolga mais que o suficiente para nos lembrarmos do filme com uma certa memória afetiva.

Shrihari Sathe, 2014

Um pequeno conto indiano em formato de filme, narrado quase como uma peça de teatro com enquadramentos poéticos e dramáticos no melhor estilo Central do Brasil, Nota de 1000 Rúpias caminha pelo inevitável drama do povo indiano e sua pobreza explorada ou subjugada pelos ricos e poderosos e corruptos políticos e seus asseclas, igualmente alheios à imoralidade de suas ações.

Byung-Hoon Ha, 2016

Maeumui sori é uma espécia de sitcom e novela/série coreana que apela para o absurdo, peidos e quadrinhos mal desenhados. Ele é engessado em seu formato e simples em sua abordagem, e tenta concentrar o maior número possível de piadas escatológicas e familiares aos seus poucos personagens.

Benjamin Caron, 2017

Constituindo o episódio mais fraco da temporada, este é apenas um joguinho que tenta apresentar uma nova personagem de maneira impactante e exagerada, mas que no máximo o que consegue é colocar o brilhante detetive e seu fiel escudeiro em um jogo de videogame de luxo, onde vidas serão tiradas, mas nem isso incomoda mais os fãs do psicopata que está do lado da lei.

Eis mais um vilão de respeito para a série Sherlock, embora este seja apenas um fantoche para mais uma demonstração das inúmeras habilidades do detetive de Baker Street. Há brincadeiras a respeito dele ser o autor do blog que Watson (Martin Freeman) escreve a respeito das aventuras do companheiro, e há uma participação perturbadora do detetive e seu escudeiro em um hospital com crianças. O vilão, interpretado de maneira caricata e divertida por Toby Jones, ainda assim é um marco, pois permite que os heróis sejam… heróis!

Rachel Talalay, 2017

Sempre um prazer assistir a um novo episódio da série Sherlock, que atualizou o personagem e o gênero de investigação criminal através de um roteiro, direção e edição que insistem em correr além do espectador, jogando migalhas de pistas para que imploremos por mais. Aqui a história volta para os tempos atuais, e há uma certa mesmice, mas que é explorada com uma certa elegância e que contém em seu terceiro ato uma notícia bombástica e ao mesmo tempo covarde, pois coloca os dois companheiros, Sherlock e Watson, de volta a um formato formulaico, embora apaixonante.

Cine Tênis Verde - 2017-04-28 12:36:25