007 Contra Spectre

Spectre é tão bom ou tão ruim quanto Quantum of Solace, mas por motivos opostos. Enquanto na segunda aventura de Daniel Craig como James Bond a complexidade do roteiro piorava uma experiência que já se repetiu em mais de vinte filmes, dessa vez a sua simplicidade quase infantil gera uma decepção crescente a cada minuto que se passa na projeção.

Tentando resgatar a visão clássica do agente, uma continuação óbvia do excelente arco visto em Skyfall, o roteiro escrito por um batalhão de pessoas (nunca um bom sinal) tenta se sair bem apenas repetindo cenas e situações dos Bonds anteriores, como uma espécie de homenagem no formato de passeio de museu, sem se preocupar em estabelecer uma trama com personagens minimamente interessantes.

Com quase nenhum diálogo marcante ou situação memorável (as duas únicas exceções talvez sejam a pequena conversa com um ratinho e um “comece logo, pois a pior tortura é ouvir você falar”), os personagens secundários de 007 sempre são estereótipos, mas costumam se beneficiar do caricato para serem lembrados pelo exagero, embora suas motivações possam ser intuídas pelo espectador. Isso costuma funcionar muito bem com os vilões, como o fanático Silva (Javier Barden) ou o obcecado Le Chiffre (Mads Mikkelsen) e as mocinhas, quase sempre marcadas pelas suas virtudes físicas e pelas atitudes chauvinistas de Bond em torno delas. Aqui a graça se perde completamente com a insossa viúva Monica Bellucci e a pseudo-misteriosa-atrevida-independente Léa Seydoux (Madeleine Swann), que não só não conseguem convencer como conseguem atrair o agente como o próprio 007 parece agir no piloto automático. Talvez essa seja a definição “bondiana” de sex-machine.

E se isso já seria grave nos romances temporários com as Bond Girls, que servem como uma diversão de passagem pela história, isso se torna imperdoável quando acontece com os vilões, e em específico esse vilão, que representa não apenas mais um antagonista megalomaníaco, mas um ponto crucial na vida pessoal de Bond. Mesmo interpretado pelo sempre competente Christoph Waltz, o baixinho amalucado Blofeld se torna uma versão não-engraçada de Dr. Evil, a caricatura criada pela paródia desses filmes em Austin Powers. Aparentemente os idealizadores do filme não relacionaram que Dr. Evil já faz parte da cultura pop, pois sequer o figurino de Blofeld difere em muito do estereótipo de Dr. Maluco. Aparentemente, não… é certeza. Do contrário, não colocariam Waltz limpando neuroticamente seu terno. Se esqueceram apenas da criação de tubarões no subsolo.

Mas falando ainda do roteiro, as situações que são montadas para estabelecer alguma tensão chegam a ser risíveis. Se em dado momento Madeleine Swann se despede, esse ato se transforma não apenas em um absurdo pela situação que a liga ao agente, que prometeu protegê-la, mas também em uma jogada maniqueísta totalmente previsível desses filmes: qual será o destino da “bela dama sozinha em uma noite escura em Londres”? E por falar em previsível, até mesmo a insistente necessidade de explodir por completo qualquer construção em que 007 acerte alguns tiros empalidece frente ao gancho ridículo do prédio que no começo do filme é apontado por M, que comenta casualmente que ele deverá ser demolido. Mais uma vez, o espectador está anos luz à frente do próprio roteiro e sabe que o prédio será palco do terceiro ato do filme (e adivinha o que acontecerá com ele?)

Aliado a todas essas falhas de roteiro que chega a prejudicar em muito a construção dos personagens, é quase bater em cachorro morto falar mal das atuações dos atores, vítimas da superficialidade de seus personagens desde o papel. Se Christoph Waltz não consegue o mesmo desempenho de filmes como Django Livre ou Bastardos Inglórios, se trata mais de terem lhe entregado um roteiro mais para “Como Água para Elefantes” piorado do que sua própria desenvoltura no “palco”. Mesmo assim, convenhamos: que ator se dá ao luxo de fazer gestos ridículos com os ombros e falar com um tom idiota todo o momento sem entender que seu personagem ainda não realizou nenhuma ação que justificasse esse possível medo que os mocinhos teriam dele.

Tendo apenas pontas bem desempenhadas por Ralph Fiennes e Ben Whishaw, que realizam seus costumeiros M e Q, até Daniel Craig pisou na bola em seu quarto filme, desempenhando um 007 no automático que não consegue se desvencilhar da maior falha em filmes de ação da década: a invulnerabilidade dos seus personagens. Se em Cassino Royale o realismo das lutas e das situações de risco elevavam sua posição de herói, aqui a facilidade com que ele atinge inimigos a dezenas de metros, muitas vezes com uma pistola, não é invejável: é inacreditável demais para fazer sentido. (E ainda assim, acostumados com um 007 especialista em matar, ele permitir que o vilão forte do filme sobreviva a tantos embates é inaceitável, já que nem atirar no sujeito a cinco metros de distância aparentemente ele não conseguiu fazer direito.)

Mesmo nos aspectos periféricos, como a música, e já sabendo de antemão que nenhuma música-tema conseguiria se igualar tão cedo ao feito de Adele em Skyfall, o pior em Spectre é mesmo sua trilha sonora, conduzida por Thomas Newman em infinitos temas da música-tema de toda a série. Uma vez que a ouvimos em Skyfall no arco já citado, agora ela se banaliza por toda a aventura, virando mais um tema de jogo de vídeogame.

E por fim, se há um grande culpado a apontar pelo quase desastre no quarto filme de Daniel Craig, este é o diretor, Sam Mendes, em seu segundo filme e que não consegue sequer realizar a sequência inicial de maneira competente (onde os figurantes mecanicamente se movem na frente da câmera), além de se perder em quadros que misturam contra-luz com mistério sem motivo algum (a exceção seria talvez a reunião da Spectre). Com a desajuda de seu editor, Lee Smith, juntos eles realizam uma experiência focada em episódios, que soa mais como parte de um seriado chamado “007 por Daniel Craig”, que teve um início excelente, é verdade, mas que aos poucos virou apenas um chamariz para novos filmes. Depois desse episódio, eu acredito que já é tempo dessa temporada acabar e voltarmos para o bom e velho Cinema, onde um homem se diverte sendo torturado pelos seus órgãos genitais, e isso revela seu passado, sua essência e ainda é engraçado. Que declínio esse James Bond teve…

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-11-14 imdb