007 Operação Skyfall

Skyfall volta a abraçar a mitologia 007 criada em sua era clássica e ao mesmo tempo discute o futuro de um personagem retrô ? mas com estilo ? que mesmo 50 anos depois ainda consegue viver aventuras que apesar de conter ação descerebrada possui um fio condutor na história que mesmo não sendo original ou tendo momentos brilhantes ganha corpo pelo seu conjunto da obra.

Ambientado nos tempos atuais mas sempre voltando para a época de ouro do agente secreto, o roteiro escrito a seis mãos narra a crise que se estabelece o MI6 depois que um disco contendo dados sigilosos da própria corporação cai nas mãos de terroristas. Sempre agindo além da lei e contando com o anonimato para fazer cumprir seu dever, o futuro da corporação é colocado em xeque, ou pelo menos a maneira com que ela é conduzida por sua dirigente M (Judy Dench), que sofre a ameaça de ser substituída em breve.

Curiosamente essa conversa a respeito do futuro dos personagens começa com uma sequência de ação de fazer o espectador se prender na cadeira e que culmina na sua “morte” de James Bond, dando a entender que a “queda” do agente secreto e a crise na MI6 estão intimamente ligados. As circunstâncias em que isso ocorre levam M e a ministra da Inglaterra a debater o que de fato representa o serviço secreto nos tempos atuais. Em uma democracia de direito haveria lugar para que o governo agisse por trás dos panos de toda uma nação mesmo que com isso visasse a proteção de todos?

Ouço ecos da revolução causada pela Wikileaks e com ela toda a transformação encadeada por uma era onde os computadores/software/informação parecem prevalecer sobre a inteligência humana. Paradoxalmente M e sua corporação sofrem uma ameaça não apenas moral, mas física. A urgência dos eventos nos coloca dentro de um carrão no estilo 007 clássico e cuja cena tem todo o direito de reviver a trilha que marcou gerações.

Porém, não é só a música clássica que aqui tem espaço pra crescer. Começando com uma introdução arrebatadora e sua envolvente canção-tema protagonizada por Adele, a trilha composta por Thomas Newman (Beleza Americana, Wall-E) estará sempre comentando cada cena com um leve exagero que faz parte das missões do agente especial desde sempre. Nada mais natural. Afinal, se esse é o filme que discute a série, que ele respire o mito através de cada poro. Mesmo assim, a direção de Sam Mendes (Beleza Americana) continua a elaborar cenas de ação que definam James Bond mais como um agente de carne e osso do que o mito que representa, o que significa que ele continua podendo se machucar, embora nunca desarrume o seu terno.

Para isso a figura do vilão Silva, um lunático levemente afetado encarnado por Javier Bardem cai como uma luva de gênio do mal. Ele está hilário e ao mesmo tempo letal e vulnerável pela sua própria megalomania. Representa não apenas o antagonista do momento, mas a discussão sobre agentes old style. É realmente necessário tudo isso quando consegue-se controlar o mundo ? no universo do filme ? pelo computador? A questão é colocada tão bem que gera dúvidas sobre a real eficácia de uma MI6 frente a um lunático como esses, que de qualquer lugar do mundo conseguiria causar desastres.

O que nos leva ao ato final que se ilumina pela glória das gerações passadas de agentes. Não há nada de especial na história, mas o local e as circunstâncias em que ela é montada a torna especial. O próprio desfecho final e as suas perdas não mereceriam menos do que toda essa reverência.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-11-08 imdb