12 Anos de Escravidão

2015/03/19

Parece algo repetitivo fazer filmes sobre a escravidão, não? Bom, depende da abordagem. A direção certeira de Steve McQueen (Shame) consegue adaptar as memórias de Solomon Northup com precisão. Solomon foi um afro-americano nascido livre em Nova York de 1853 e que foi sequestrado e vendido como escravo na capital do país que se formava. O que está sendo mostrado não é exatamente um registro genérico sobre escravidão, mas uma reflexão profunda, bem ritmada e, sobretudo, um documentário de nossa época a respeito do que é ser um escravo.

12 Anos de Escravidão poderia facilmente ser acusado de ser um filme didático demais, pois acompanha a vida de Solomon (Chiwetel Ejiofor) em diferentes tipos de trabalho, como o cultivo da cana, do algodão e a extração de madeira, parecendo que essa estrutura foi montada para contar um pouco o que cada escravo sofreu da mesma forma que ele (só que uma vida inteira). Porém, esse é um ledo engano, já que o roteiro de John Ridley e as transições sutis e agradáveis de McQueen, mostrando lindas paisagens que mudam conforme as estações do ano e a época da nova colheita, consegue encadear um ritmo admirável e orgânico por 12 anos na vida do sujeito sem precisamos das cansativas legendas que marcam a passagem do tempo.

Os poucos diálogos que permeiam a narrativa, geralmente entre os negros mantidos em cativeiro, servem para refletir sobre o ponto de vista das pessoas que não conhecem mais o que é ter escravos em sua sociedade, ou até mesmo como a escravidão está longe de ser um fenômeno gerado unicamente pelo racismo. Aliás, é fascinante observar os negros sendo usados, através de um sistema de débitos, como uma moeda de troca, sendo que até mesmo senhores mais aversos à violência – como Mr. Ford (Benedict Cumberbatch) – são quase que coagidos a manter a crença – já alvo de críticas naquela sociedade, pelo menos a do norte – de que é natural manter pessoas como sua propriedade e fazer o que quiser com elas. Não é preciso apelar para uma visão mais holística da economia da época quando conseguimos enxergar essa dinâmica diretamente nas pessoas com as quais Solomon é obrigado a conviver.

Por outro lado, é extremamente curioso perceber como o uso da religião e a cultura da escravidão não são causas por si só, mas usadas como desculpa para os atos mais cruéis. Dessa forma, apesar de tanto Ford quanto Epps, vivido por um irreconhecível Michael Fassbender, serem religiosos e costumam ler trechos da bíblia para seus escravos, apenas Epps aproveita versículos como tábuas de lei para cometer seus crimes mais repugnantes. Não se pode nem comparar com o personagem de Paul Dano, já que este representa a sociedade não-pensante da época que desconta sua raiva em escravos como se estivesse tratando com cachorros.

Porém, quem procura apenas um filme bem feito, vai encontrar enormes motivos para se deliciar com a fotografia, a direção de arte e, principalmente, com a coletânea de atuações de um elenco de celebridades afiadíssimo. É o tipo de filme que não requer diálogos expositivos, pois tudo que está na tela é o suficiente para entendermos 80% da história. E até detalhes mais “obscuros”, como o fato de Solomon aparecer em seus últimos momentos como escravo à esquerda da tela – uma posição de menor destaque, portanto – e logo depois, na próxima cena, preencher completamente o lado direito – o lado dominante de um quadro – poderá ser aproveitado por quem ama Cinema como uma arte.

Acima de tudo, no entanto, respondo minha própria pergunta inicial: não, não é algo repetitivo ficar falando sobre escravidão no Cinema. Filmes refletem nossa visão contemporânea sobre o assunto. E da mesma forma como é feito em filmes sobre o Holocausto, torcer para que a esmagadora maioria continue condenando atos tão selvagens que uma vez foram cometidos pela humanidade.

★★★★★ 12 Years a Slave. USA, 2013. Direction: Steve McQueen. Script: John Ridley. Solomon Northup. Cast: Chiwetel Ejiofor. Dwight Henry. Dickie Gravois. Bryan Batt. Ashley Dyke. Kelsey Scott. Quvenzhané Wallis. Cameron Zeigler. Tony Bentley. Edition: Joe Walker. Cinematography: Sean Bobbitt. Soundtrack: Hans Zimmer. Runtime: 134. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Biography. Category: movies

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