13 Reasons Why

2017/12/07

Essa novelinha pré-adolescente consegue ser bem irritante às vezes. Não é uma produção barata nem tosca. Muito pelo contrário. Há muitas virtudes narrativas em um trabalho que parece descartar apenas uma virtude dentre as que escolheu: coerência. E é através dessa “pequena” falha que podemos concluir que, apesar de tecnicamente interessante e artisticamente bonito, “13 Reasons Why” é uma merda colossal que revela que esta geração tem pouquíssimas chances de sobreviver a eles mesmos.

Felizmente os jovens possuem cada dia menos acesso ao porte de material perigoso como armas, drogas e palavriado pesado. Certo? E quando algo é desagradável basta ignorar; quando é relevante voltamos ao “precisamos falar sobre”. No começo da história a paranóia dos adultos com o suicídio de uma garota soa familiar. Há uma mobilização da escola e dos pais em tentar conversar com seus estudantes e filhos afim de evitar que isso aconteça de novo. Todos temem o sistema em que estão inseridos. Talvez porque todos nós já tivemos vez ou outra a vontade de nos matar. Enquanto isso, os jovens parecem já ter assimilado perfeitamente esse acontecimento, exceto o mais problemático Clay Jensen. Sempre prática, a série de animação South Park sempre usou dessa receita para demonstrar como uma situação inofensiva nas mãos dos adultos vira uma tempestade sem fim. E nesse sentido, Clay já é um adulto.

O garoto problemático que não aceita bem o suicídio de Hannah Baker estava no fundo apaixonado ou pelo menos fascinado por ela. Ele é um dos últimos a receber uma série de fitas cassetes gravadas pela suicida hipster antes de cometer seu ato final. Em cada lado das 13 fitas, que começam 12, ela acusa um dos jovens da escola a ser um dos motivos pelo qual ela se matou. Acompanhamos sua narração enquanto este garoto lesado e lerdo tenta ouvir as fitas até o final. A fórmula de dramalhão mexicano em que ele para e reinicia a escutar as fitas enquanto busca saber onde ele é citado não funciona muito aqui, pois é uma fórmula batida feita para encher linguiça e tentar aguçar um ou outro “mistério” não resolvido. É preciso lembrar que as reações dos outros jovens convenientemente só começam a refletir em suas realidades conforme este garoto avança nas fitas, o que acaba tornando tudo muito artificial.

No entanto, nem só de maniqueísmos é feita a série. A interação entre esses jovens é a parte mais interessante da história, pois ilustra de maneira levemente realista e sem muitos rodeios como funciona a vida pré-adulta, além de apresentar diferentes jovens e seus estilos em performances competentes. E diga-se de passagem, essa dinâmica se torna ainda mais interessante se por comparação formos acompanhar a história de Hannah a partir de seus causos nas fitas. Ela é uma pessoa neutra, sem personalidade, que se machuca fácil, mas que insiste em tentar alguma coisa. Ela parece estar em uma crise de depressão, mas isso seria simples demais para a série. Sem nunca conseguir entender suas emoções e como lidar com elas, continua saindo de casa porque acha (eu acredito) que eventualmente vai acabar tudo bem. Tudo são especulações, já que ninguém parece conhecer de fato Hannah. Nem mesmo Clay, que trabalhou com ela por um tempo.

Mesmo com o eterno problema da falta de comunicação permeando essas pessoas, jovens e seus pais, jovens entre jovens, a série demonstra alguns traços nada agradáveis em comum no garoto e na garota: ambos frequentemente parecem se sentir juízes divinos que caíram do céu a julgar os atos de todos os outros jovens e adultos da história. Exceto eles mesmos. Eles nunca estão errados ou parecem ocupados demais para um auto-julgamento, já que, sempre cheios de razão (ou emoção) fazem sempre questão de expressar que algo precisa ser feito, muito embora nenhuma das sugestões de quem está ouvindo-os reclamar sejam aceitas como válidas. O que me faz abordar o tema óbvio que a série busca explorar: o nosso mundo óbvio do politicamente correto, da justiça social e como tudo isso infecta a mente dos jovens a ponto de realizar uma lavagem cerebral. Não só Hannah e Clay são afetados, mas todo mundo é educado a não dizer certas palavras para não ofender as pessoas.

Mas nada disso impede que o bullying ocorra. Ele sempre vai ocorrer, pois sempre existirão pessoas mais fracas que outras. As pessoas mais fracas da sociedade perecem, queira você as proteger de palavras e ações ofensivas ou não. Porém, agora elas têm uma “arma”: podem tentar fazer justiça verbal enquanto sofrem em silêncio, definhando em um mundo que lhe dá as costas justamente por serem um pé-no-saco. Ah, a ironia.

A história é retratada em um formato flashbacks integrados à narrativa atual, de forma que vemos Clay passeando pelos lugares que Hannah passeou mentalmente conforme foi compondo as fitas. A direção conjunta de seis diretores trouxe uma incrível coesão visual, com uma montagem elegante que respeita a inteligência do espectador. Às vezes nos perdemos, momentaneamente, mas o efeito de passar de passado a presente todo o tempo de maneira charmosa, utilizando elementos em cena, vozes, luzes e quadros, traz tudo à tona na mente de Clay de forma tão vívida, e a fotografia é tão cinzenta comparada com a Hannah e seus últimos dias, que parece fazer valer toda a lenga-lenga da série.

Mas infelizmente este projeto está podre por dentro. Ele quer que acreditemos que suicídio pode ser resolvido “se todos nós nos tratarmos melhor”; a mesma fórmula que o SJW tem proposto para aparentemente todos os problemas do mundo (até a fome). E com base nesse moralismo do século 21 “13 Reasons Why” descreve com precisão repugnante como a mente de pessoas funciona nesta sociedade que tenta proteger seus membros simplesmente não falando sobre. Porém, quando uma série decide fazer isso, torna tudo muito, muito pior. Assim como o resto dos movimentos sociais em voga, essa história não conclui nada positivo, mas arrisca sugerir que Hannah Baker, além de estar em seu direito, estava certa. E o sentimento geral é de que todos os SJWs do mundo poderiam seguir o seu mesmo caminho, e o mundo seria um lugar melhor.

★☆☆☆☆ 13 Reasons Why. USA, 2017. Direction: Gregg Araki. Kyle Patrick Alvarez. Carl Franklin. Tom McCarthy. Helen Shaver. Jessica Yu. Script: Jay Asher. Brian Yorkey. Nic Sheff. Thomas Higgins. Elizabeth Benjamin. Diana Son. Cast: Jesus N Jimenez (Student / ...). Ke'Mari Moore (Jock). Michele Selene Ang (Courtney Crimsen). Joseph C. Phillips (Mr. Davis). Alexander Gomez (Student / ...). Jeff Redlick (Pedestrian / ...). Dylan Minnette (Clay Jensen). Katherine Langford (Hannah Baker). Christian Navarro (Tony Padilla). Edition: Leo Trombetta. Daniel Gabbe. Matthew Ramsey. Sue Blainey. Cinematography: Ivan Strasburg. Cameron Duncan. Andrij Parekh. Soundtrack: Eskmo. Runtime: 60. Gender: Drama. Category: blog Tags: netflix

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