1984: A Peça

Oct 26, 2018

1984 está nas mentes e na alma de nossa sociedade. Ela foi concebida como um alerta por George Orwell contra o autoritarismo e totalitarismo crescente na Europa da segunda guerra, mas por seu formato universal, tal qual A Revolução dos Bichos, se transforma em um guia útil para qualquer época em que isso for um risco para a sociedade. E, sejamos honestos, sempre existirá esse risco.

Dessa forma, é notável o que a peça recente em exibição no Teatro Porto Seguro, que parte de uma montagem britânica com a direção de Zé Henrique de Paula para uma experiência que mistura o relato de seu protagonista, Winston, como um aviso para os não-nascidos, no caso nós, da plateia.

Mas a brincadeira é apenas um pedaço da experiência, que se concentra em recriar os momentos mais icônicos da história e suas falas, suas poderosas falas, que na boca e nas expressões de um elenco afiadíssimo ganha uma textura digna de uma adaptação que resgata com sucesso a alma do original em um formato mais vívido, embora com o mesmo peso.

As trucagens do palco conseguem contar toda a história sem interrupções por 110 minutos, embora os próprios atos parecem não existir, pois são misturados. Porém, há um momento em que as paredes se erguem como páginas que se vão, e há uma montagem final interessante dentro de uma caixa menor que o palco e que pode atrapalhar quem estiver vendo de cima (“cortando suas cabeças” para quem vê de muito próximo).

Outro toque muito eficiente são os vídeos que são projetados na parede, que podem mostrar, por exemplo, Winston escrevendo em seu diário ou os momentos dele e Julia no quarto onde não há teletelas. Isso nos faz até pensar: seríamos nós, espectadores, também parte do Grande Irmão? O texto de Orwell deixa claro que o maior perigo é ele estar ativo dentro de nós.

Se trata de uma peça pesada, que não admite espectadores relaxados. Há tensão do começo ao fim, com algumas brincadeiras divertidas para desestressar, como Brian arrumando frequentemente o cabelo revoltado de Winston.

Termina muito rápido. O recado se mantém por mais um tempo. E dá vontade de ler novamente o livro ou ver novamente o filme. Orwell, como já se sabe, sempre é atualíssimo.

Wanderley Caloni, 2018-10-26. Baseado na obra de George Orwell.