1984

O que é ser humano? Embora essa questão se torne vital nos últimos minutos de 1984, ela permeia toda a história desenvolvida visualmente no filme e que é pesadamente baseado na literatura clássica de George Orwell. Sua visão de “futuro” distópico, influenciada por uma guerra autoritária e desumana, se torna um tema grandioso demais para se justificar apenas como um “filme de política”. É, antes de tudo, um filme sobre nossa própria existência.

Usando a fotografia pálida de Roger Deakins (Operação Skyfall), um azul melancólico predominante que só perde para o cinza massivo das paredes internas e externas das construções, e até do ar e das nuvens, surgindo como uma versão (ainda mais) deprimente de Londres, o filme retrata a realidade da Oceania, um país cujas fronteiras são constantemente postas em xeque por outros dois países que alternam a posição de inimigo eterno conforme os jornais históricos são reescritos. Winston (John Hurt) é um dos encarregados em realizar essas trocas diárias de informação, que lidam com os fatos mais triviais – como alterar a foto de um campeão de xadrez – até dados econômicos, como a quantidade de ração distribuída para a população.

A realidade aqui é deturpada ao máximo, como em toda boa distopia, mas deixa escapar comparações óbvias e relevantes nos dias de hoje, como a internet e suas mudanças no ritmo do segundo, ou como a informação dentro da notícia passa a valer menos do que ela mesma. E quantas vezes a mentira inocente ganha status de verdade, e até de sabedoria? Onde além dos jornais, que anseiam por vender notícias nem que tenham que fabricá-las, até órgãos oficiais se protegem da má imagem relativizando dados matemáticos (e qualquer semelhança com IBGE e seus comparsas não é mera coincidência).

Definindo com exatidão todas as informações-chave do romance de Orwell, o filme dirigido pelo irregular Michael Radford (O Mercador de Veneza e o remake americano de Elsa & Fred) consegue fluir sua narrativa e o romance de Winston e Julia ao mesmo tempo revelando de passagem momentos icônicos da literatura. Ou seja, como adaptação, consegue o mesmo que tantos filmes da Marvel que a garotada dos gibis compara e considera ou não fiel, além de suas merecidas homenagens. Aqui a homenagem é fugir o menos possível das ideias por trás do livro, pois estas merecem ser degustadas não só pelos memoráveis diálogos, que estão aqui da forma como foram concebidos, ou simplesmente pela arte do áudio-visual transformando uma experiência profunda em duas horas de pura tortura e sofrimento psicológico.

A figura pálida e tímida criada por John Hurt é absolutamente genial, pois consegue através da falta de expressão, e com ajuda de micro-expressões, entregar um Winston Smith idêntico ao original sem fazê-lo perder a oportunidade de vê-lo em ação dizendo as falas que imortalizaram seu personagem, como as duas referentes à vizinha proletária estendendo o varal. Suas observações perspicazes a respeito da beleza da senhora revelam que apesar de se comportar como todos os outros, sua inteligência e sua história de vida o colocam acima da mediocridade da sociedade idealizada na figura do Grande Irmão, um rosto que sempre é exibido em todas as telas gigantes de TV obrigatoriamente presentes em todas as casas dos burocratas. A própria comparação de vida entre os funcionários de estado e o proletariado já é sinal de que o sistema já foi pensado em doutrinar os mais perspicazes através de joguetes psicológicos e monitoração constante, e domar o gado de maneira mais grosseira e violenta (pois como é dito duas vezes, eles já são tratados e considerados animais).

Suzanna Hamilton entrega uma Julia que todos nós esperávamos, mas que subverte a relação do casal apenas de forma periférica, o que tudo bem, já que não é o foco central da trama. Sendo o rosto belo no meio de uma multidão, ainda assim Michael Radford consegue um bom elenco secundário e extras que se confundem, o que é ótimo para a visão de gado que o filme tenta mostrar. E o que dizer a interpretação meticulosa de Richard Burton como O’Brien, o burocrata de alto escalão? Surgindo praticamente na metade do filme, embora apareça em momentos pontuais sem ser apresentado até então, a Burton consegue inserir toda a frieza do método estatal em sugar a alma de seus contraventores, repetindo diálogos longos em tom monótono, mas que ao mesmo tempo revelam uma certo tom de invencibilidade argumentativa, o que de fato se torna.

Conseguindo manter sua textura dramática pelo visual e seu tom filosófico pelos “perigosos” pensamentos de Winston, 1984 é uma obra-prima tanto nas interpretações quanto em seus aspectos técnicos. Saber que foi filmado exatamente durante a época em que a história se passa no livro quando este era o “futuro”, a experiência ainda ultrapassa a quarta parede em pelo menos tematicamente soar como um aviso sobre sempre estarmos alertas para governos que se lançam à empreitada da guerra e com isso controlam cada vez mais a vida de seus cidadãos. Maior homenagem que esta, acho difícil imaginar.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-08-11 imdb