2001: Uma Odisseia no Espaço: O Livro (até a metade)

Comprei este livro na Black Friday do ano passado da Amazon. Ou ganhei porque o prefeito de São Paulo é um retardado e ficou intimando essa empresa? Pra ser sincero não lembro mais. E não importa. O fato é que não sou muito de ler ficção. Quando começo a ler já desisto. Antes desse tentei Grande Sertão: Veredas. Mas talvez esteja lendo as coisas erradas. Gosto muito de sci-fi, e 2001 é um dos meus filmes prediletos. Portanto, comecei a ler este. E em duas semanas, lendo esporadicamente, já cheguei na metade. É um livro que fala diretamente com quem é fascinado por viagens espaciais, mas, acima de tudo, os que são fascinados pela complexidade da consciência humana e do universo em si.

Nem tanto pela complexidade, mas pelo mistério. O mistério existe até hoje, e provavelmente irá existir para todo o sempre. De qualquer forma, não há como não se deixar levar pela pura poesia científica que Arthur C. Clarke estabelece no primeiro terço do seu livro, quando acompanhamos uma família de primatas tentando sobreviver em condições extremas da natureza em sua volta (e é preciso lembrar aqui que Clarke e Kubrick estavam trabalhando em paralelo, filme e livro, então é difícil determinar o que influenciou o quê). Mas não estamos observando humanos ainda. Nem os “homens-macacos”. Não. Esta é a beleza desta parte. Ainda são proto-humanos, proto-consciência, de algo ainda inimaginável.

Famintos sempre estiveram, mas agora morriam de fome. Quando o primeiro brilho fraco da aurora se insinuou até o interior da caverna, Aquele-que-Vigia-a-Lua viu que seu pai havia morrido à noite. Ele não sabia que o Velho era seu pai, pois esse tipo de relação estava absolutamente além de sua compreensão, mas, ao olhar para o corpo emaciado, sentiu uma vaga inquietação, que era a ancestral da tristeza.

E esses proto-humanos ainda estavam aquém de sua capacidade intelectual. Havia a força, mas faltava a inteligência. Que maneira bela de descrever isso!

Então Aquele-que-Vigia-a-Lua e seus companheiros mastigavam bagas, frutas e folhas, e lutavam contra as aflições da fome – enquanto ao redor deles, competindo pelo mesmo alimento, havia uma fonte potencial de mais comida do que jamais poderiam esperar comer. E, no entanto, os milhares de toneladas de carne suculenta que percorriam a savana não estavam somente além de seu alcance; estavam além de sua imaginação. No meio da fartura, eles lentamente morriam de fome.

Eu ressalto a poesia dessa experiência sobre-humana que C. Clarke nos revela. Já é fascinante acompanhar as descobertas científicas, mas tentar imaginar uma era em que nós não existíamos, mas estávamos permeando o terreno, é de um esclarecimento que não só satisfaz o intelecto, como o espírito.

A noite prosseguiu, fria e límpida, sem mais alarmes, e a Lua subiu lentamente entre constelações equatoriais que olho humano algum jamais veria. Nas cavernas, entre cochilos intermitentes e uma espera amedrontada, nasciam os pesadelos de gerações vindouras.

Authur C. Clarke não é apenas um autor de ficção-científica fascinado pelos sonhos que a ciência nos fornece, seja do passado, do presente ou do futuro. Não. Ele tem plena noção do mistério maravilhoso que se instala na mente dos que chegam a questionar o que é a consciência em si. Sabemos que o surgimento dela não foi instantâneo como o livro sugere, nem possui origem alienígena (muito provavelmente). Mas o fato de não sabermos, e ao mesmo tempo sabermos de sua célebre frase (“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinta de magia”) nos revela o quão misteriosa é a própria realidade para nós hoje mesmo, se pensarmos que antes nada havia, e em algum momento, ou em milhões, bilhões desses momentos, algo se formou.

Ele não tinha lembrança consciente do que tinha visto, mas, naquela noite, ao se sentar inquieto na entrada de seu antro, os ouvidos sintonizados nos ruídos do mundo ao redor, Aquele-que-Vigia-a-Lua sentiu as primeiras pontadas leves de uma nova e poderosa emoção. Era uma vaga e difusa sensação de inveja – de insatisfação com sua vida. Ele não tinha ideia da causa, e menos ainda da cura, mas o descontentamento se instalara em sua alma, e ele tinha dado um pequeno passo na direção da humanidade.

“2001” é tudo aquilo que o filme – que já é um clássico – sugere, e em um nível literário, o que quer dizer que verbalmente e descritivamente o livro nos coloca em uma posição de analisar com mais calma ainda, e com poder mais reflexivo, o quão profundo certas transformações da natureza podem ser.

Ao contrário dos animais, que só conheciam o presente, o Homem havia adquirido um passado; e começava a tatear na direção de um futuro.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2018-05-16. 2001: A Space Odyssey. Arthur C. Clarke, 1968.