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Wanderley Caloni, 2016-12-04

Mais uma série Netflix advinda de um experimento de produtores brasileiros. Cheguei a ver o piloto experimental no YouTube. Parecia promissor, ainda que precisasse de polimento no formato novelístico e superficial. Hoje, com a primeira temporada já produzida em nível Netflix, é possível afirmar que ele ainda precisa de polimento, pois possui os mesmos defeitos ignorados pela gangue de roteiristas.

Há uma boa história em 3%, no entanto. Futuro distópico, humanidade (ou aquela parte da humanidade) é dividida em duas castas. Uma, por um motivo qualquer, é de pessoas com riqueza de recursos. A outra é a ralé, que vive em casebres que lembram as gigantescas favelas brasileiras. Os moradores da parte menos nobre possuem uma chance na vida de migrarem para a parte rica, desde que passem por um conjunto de testes idealizado pela… adivinha? parte rica. Alguns não estão satisfeitos com isso e montaram uma milícia revolucionária. Outros possuem uma história emocionante que você irá acompanhar em flashbacks em cada novo episódio.

Sim, estou sugerindo que tudo isso é muito clichê. Além disso, esse futuro distópico, apesar de possuir partes rica e pobre, é pobremente idealizado. A direção de arte e os efeitos visuais são pedestres. E parte dessa visão que nos é oferecida é culpa da direção, que insiste em tratar um “Ensaio sobre a Cegueira” como se fosse “Jogos Mortais”.

Aparentemente, não só eles. A gangue de roteiristas parece se dividir entre os que conseguem arrancar ótimos momentos onde as equipes dos competidores interagem, construindo alianças e rixas temporárias e convenientes, além de atuações particularmente curiosas de acompanhar – como um cadeirante traindo seu orgulho, se vitimizando, para conseguir passar de fase. No entanto, esses ótimos momentos estão embalados em um verdadeiro show de horrores de personagens da parte rica, que são paradoxalmente pobremente desenvolvidos, além de possuírem os diálogos mais cafonas (apesar disso, os participantes do campeonato também possui uma grande dose de diálogos pavorosos e reveladores demais do que estão sentido ou o que está acontecendo).

Além disso, o elenco está atipicamente irregular. Mesmo com alguns atores famosos e um elenco jovem que parece ter potencial, a série parece subutilizá-los, oferecendo comportamentos e atuações pedestres, mecânicas, que repetem diálogos novelísticos quando poderiam improvisar um conteúdo muito mais interessante.

No entanto, esta parece ser uma série didática que busca entregar tudo mastigado para seu espectador. E o motivo, eu posso estar sendo preconceituoso, mas tudo indica que é mais uma vez uma cartilha de esquerda, que mais uma vez quer subverter bons temas em prol de uma ideologia falida, e que em 2016 encontra símbolos grandiosos de seu retumbante fracasso. Isso explicaria, por exemplo, porque o mundo mostrado na série é tão simplório, que ignora fundamentos econômicas dos mais básicos para entregar a velha luta de classes embalada em um velho formato enlatado de série B.

Se há uma esperança na série é apenas se ela começar a ficar mais complexa. Se permanecer seu formato episódico, com o título determinando qual o próximo desafio, e mais um flashback de mais um personagem, ela irá virar o que desde o começo parece ter anunciado: uma novela com um estilo mais artístico. E com um orçamento limitado. Ou isso, ou seus idealizadores realmente não conseguem sair da caixinha vermelha nem se bem pagos.

★★★☆☆ 3%. Brazil. 2016. Direção: César Charlone, Jotagá Crema, Daina Giannecchini, Dani Libardi. Roteiro: Pedro Aguilera, Jotagá Crema, Cássio Koshikumo, Ivan Nakamura, Denis Nielsen. Elenco: João Miguel (Ezequiel), Bianca Comparato (Michele Santana), Michel Gomes (Fernando Carvalho), Rodolfo Valente (Rafael Moreira), Vaneza Oliveira (Joana Coelho), Viviane Porto (Aline), Sérgio Mamberti (Matheus), Zezé Motta (Nair), Celso Frateschi (Líder da Causa). Fotografia: Eduardo Piagge. Trilha Sonora: André Mehmari. Duração: 49::(approx.). Action. #netflix