3%: spoilers sobre uma série para bandidos

2017/01/01

Michele e Rafael são idiotas úteis movidos por vingança – e que poderia muito bem ser outro sentimento negativo, como inveja – e instrumentados por um movimento semelhante ao PCC de São Paulo, Brasil. Seu objetivo como grupo é claro: roubar a riqueza dos que prosperam do “lado de lá”, uma sociedade formada inteiramente através de um processo meritocrático, e que não precisou de nem um centavo das milhares de miseráveis que sobrevivem como selvagens em uma grande favela sem leis chamada de “lado de cá”.

Os fundadores do lado de lá foi um casal, que não obrigou ninguém a segui-los nem forçou ninguém a ajudá-los. Agora, mais de cem anos depois, vemos dezenas de jovens se digladiando em um processo que irá lhes dar o privilégio de sair da selvageria da lei do mais forte. No meio deles, Michele e Rafael “lutam” como piratas sem honra, como o escárnio da sociedade de miseráveis. Além de não conseguirem produzir nada que preste exceto pobreza e violência, os moradores do lado de cá aos poucos se organizaram em uma facção criminosa movida pela inveja, declarando politicamente que todos teriam direito aos recursos produzidos pelo lado de lá.

O lado de lá parece atingir com sua filosofia podre de lei do mais forte e apelo à emoção com tanta força seus descendentes do lado bom, que o processo parece ter escalado apenas as pessoas mais alheias à selvageria humana para conduzir o sistema meritocrático, encabeçado pelo frio e calculista Ezequiel. Ele já teve que ver sua mulher se suicidar porque não podia quebrar as regras do lado de lá, e mesmo assim manteve sua convicção no processo. Ele tem que lidar todos os dias com jovens de 20 anos de todos os tipos: de otimistas ingênuos que acham que irão ter tudo fácil no lado de lá até pseudo-revolucionários de merda que acreditam que sabem mais que todo mundo mesmo tendo acabado de sair das fraldas. Aliás, se considerarmos a grande massa juvenil, parece até descabido existir tão poucos com um pensamento mais comunitário e até comunista, já que está cientificamente provado que os que não possuem argumentos lógicos no início de sua vida adulta sentem-se apaixonados naturalmente por uma causa irracional. E qual é a causa irracional mais atraente senão aquela que lhe promete dar tudo mesmo sem você precisar produzir nada?

A verdade é que no meio de tanta estupidez nos crentes do processo, desde o começo da fundação do ingênuo casal corporativista (ou platônico?) que acreditava em uma utópica meritocracia ainda na vida adulta, nenhum dos dois lados parece ter um pingo de razão. Entendendo como o processo funciona, a porta de entrada para este mundo paradisíaco, fica difícil acreditar que de fato existe uma sociedade do lado de lá que seja mais esperta que o bando de jovens que lutam por um lugar ao sol. Se analisarmos o bê-a-bá econômico, já não faria sentido, mas filosoficamente falando, uma sociedade dessas só poderia ser formada por robôs, e não por ex-cidadãos favelados filhos de bandidos sanguinários.

As obras do destino no meio do processo parecem até terem sido escritas por um desses moleques descerebrados vestindo a camiseta do Che Guevara, o assassino cubano homofóbico declarado. No ápice do seu ódio desproporcional e sem explicação da classe média (senão a pura inveja), o processo acaba literalmente cortando ao meio um dos filhos do lado de lá (nascido no lado de cá, claro), com direito a todos os requintes de crueldade. E isso sem ninguém perceber que aquela prisão entre contêineres é justamente uma mini-sociedade lado de cá, onde não existe lei (ou, outra forma de dizer, é a lei do mais forte que impera).

Talvez o que torne o processo tão enigmático é que tanto os que selecionam quanto os selecionados ignoram que vivem em uma utopia. Nada, desde o processo até o lado de lá, faz sentido algum. A única coisa que faz sentido é o lado de cá, com sua miséria gerada por uma sociedade de pessoas limitadas, preguiçosas, ignorantes e selvagens. É isso o que gera a pobreza, e não um casal que decidiu há cem anos sair dessa barbárie para construir uma sociedade melhor. Acreditar que esse bando de animais merece alguma coisa de dois seres humanos apenas por existirem só pode ser fruto de uma mente doentia. E essa mente nunca passaria em seu próprio processo.

Título original: 3%. País de origem: Brazil. Ano 2016. Direção: César Charlone. Jotagá Crema. Daina Giannecchini. Dani Libardi. Roteiro: Pedro Aguilera. Jotagá Crema. Cássio Koshikumo. Ivan Nakamura. Denis Nielsen. Elenco: João Miguel (Ezequiel). Bianca Comparato (Michele Santana). Michel Gomes (Fernando Carvalho). Rodolfo Valente (Rafael Moreira). Vaneza Oliveira (Joana Coelho). Viviane Porto (Aline). Sérgio Mamberti (Matheus). Zezé Motta (Nair). Celso Frateschi (Líder da Causa). Fotografia: Eduardo Piagge. Trilha Sonora: André Mehmari. Duração: 49::(approx.). Gênero: Action. Tags: netflix

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