8 Mile: Rua das Ilusões

Eminem não é um ator: é um rapper. Esse é o pecado original de 8 Mile, um filme que tenta reproduzir a história de vida do cantor através dele mesmo e de uma atmosfera inebriante nos guetos de Detroit. Usa um elenco inspirado – Mekhi Phifer como o “paizão” Future e o hilário Evan Jones como o ingênuo Cheddar – e uma fotografia sombria que aposta nos verdes e que ajuda a entrar no universo da fumaça, das gangues, das rimas improvisadas, do frio das ruas e do carro lotado. Há diversas cenas no carro da mãe de B-Rabbit (Eminem) e parece haver uma trocentas pessoas lá dentro. As câmeras responsáveis por filmar a cena são incríveis, mas melhor ainda são os cortes realizados que geram uma fluidez que te coloca como o enésimo passageiro daquele carro que pode falhar a qualquer momento.

Porém, se o universo funciona, sua história nem tanto. E não existe tensão nem drama o suficiente em 8 Mile. Para quem está acostumado à vida na periferia de grandes cidades do Brasil, por exemplo, a vida de Eminem como o garoto incompreendido que é obrigado a viver na casa da mãe vira um dramalhão conhecido como “classe média sofre”. A título de comparação, o ambiente seco de Breaking Bad coloca a “rua das ilusões” parecendo Beverly Hills. Até o drama da mãe que vai perder a casa (uma equivocada Kim Basinger) empalidece diante dos diálogos forçados da lasciva Alex (Brittany Murphy), principalmente sua insistência em dizer para o garoto que ele terá um futuro brilhante pela frente.

Não há nada na vida de B-Rabbit que se poderia chamar de desastrosa, mesmo que 8 Mile tente de todas as maneiras nos fazer acreditar que é uma vida desgraçada. Não é. São apenas desilusões, fonte de inspiração de letras de jovens embebecidos com a droga da auto-importância seguida de depressão pós-revolta. Como todo adolescente, aliás. Não deixa de ser poético, entretanto.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-03-19 imdb