A 13a. Emenda

2017/02/05

O objetivo desse filme é te convencer que o sistema carcerário americano é um resquício do sistema escravagista do passado. Para isso ele irá distorcer significados de boa parte da história política do século 20 da forma que convir, fazer propaganda (ainda que crítica) a favor dos democratas em detrimento dos republicanos (que possuem um espantalho como Donald Trump para fazer o serviço), apelar para os sentimentos do espectador sem muitas… não, sem qualquer prova de que há de fato um sistema racista agindo por um século e meio. Isso fica claro e nítido nos exemplos anedóticos usados por todo o filme.

Ele usa o completo oposto da série documental Making a Murderer, que como todo documentário obviamente é tendencioso, mas ao contrário de apenas jogar a opinião de “especialistas” defensores da “causa negra”, o trabalho da diretora é mostrar os fatos em vídeos e áudios que contem uma história absurdamente coesa que demonstra a total incompetência ou falta de neutralidade no sistema jurídico estatal, e apenas deste caso em questão, coletando um volume excessivo de dados para provar seu ponto. Note que nesse caso não importa muito se o réu é negro ou branco (não mais se ele é pobre ou rico). Ele ser branco em Making a Murderer, no entanto, acaba tornando mais claro que o problema da justiça às vezes passa longe das cores das pessoas.

“13th” também não se trata de seguir o caminho bem trilhado de Eu Não Sou Seu Negro, outro documentário do mesmo ano sobre quase o mesmo assunto e que preenche cota nas indicações do Oscar após protestos no ano passado sobre haver poucos representantes dos 5% de negros americanos. No caso do filme que adapta um romance inacabado o apelo à emoção é óbvio, e é instigante e propício. Construído com a força narrativa do texto do autor, demonstra-se como um trabalho quase poético, e portanto é suportado pela força das ideias e dos sentimento, algo justificado em seu formato.

Mas não se pode dizer que 13th também é apenas figurativo e poético quando quase todo o filme se trata de ouvir militantes de uma causa. Ainda mais quando seus argumentos são vagos e opinativos, e há rodeios argumentativos que, quando analisados de perto, refletem conclusões de coisa alguma, mas afirmações gerais que se repetem todo o tempo tentando reafirmar a posição opressiva e vitimista em que, ao ouvirmos a voz da razão, percebemos aos poucos que todos os argumentos podem ser desconstruídos (para usar um termo esquerdista) através da análise racional e cuidadosa do que se está tentando provar.

A estrutura adotada pela diretora Ava DuVernay também não ajuda a tornar o filme palatável ou pelo menos com uma narrativa fluida. Usando o recurso cronológico padrão, dividindo seus capítulos através de músicas de rap repetitivas e igualmente sem dizer nada demais (o apelo à emoção vazia), o filme tenta “provar” que a grande falha na décima-terceira emenda é a “brecha” que permite que se prenda e se escravize pessoas criminosas. Portanto, durante toda a parte que alguém fala sobre isso a palavra “criminal” surge na tela. Uma escolha consciente. Eu sugeriria que fosse usada outra palavra. Talvez “direitos”, talvez “processo histórico”, talvez “injustiça”. Todas expressões igualmente válidas para a proposta do filme, que não tem no fundo proposta alguma.

Mas mesmo filmes sem proposta poderiam ser interessantes per se, ao expor o problema e tentar mostrar suas raízes. Porém, o interesse dos entrevistados não é tentar achar a raiz de qualquer uma das questões, mas apenas encontrar padrões que determinem que as “minorias” estão sendo prejudicados de alguma forma. No entanto, é preciso elogiar a lógica investigativa de algumas frentes, como a que desmascara o lobby terrível do conglomerado de corporações que suportava um grupo que redigia leis para seus políticos indicados. Mesmo frente ao real problema de permitir que existam leis criadas ao sabor do vento que sopra de onde vem o dinheiro, parece nunca surgir um sopro de lucidez nas pessoas. Mesmo honestos em seus argumentos e encontrando curiosamente que é a força das leis injustas que permite que injustiças sejam aplicadas consistentemente, ninguém parece sugerir que esse sistema deveria ser abolido ou minimizado ao máximo.

★★☆☆☆ Título original: 13th. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Ava DuVernay. Roteiro: Spencer Averick. Ava DuVernay. Elenco: Melina Abdullah (Herself - Interviewee). Michelle Alexander (Herself - Interviewee). Cory Booker (Himself - Interviewee). Dolores Canales (Herself - Interviewee). Gina Clayton (Herself - Interviewee). Jelani Cobb (Himself - Interviewee). Malkia Cyril (Herself - Interviewee). Angela Davis (Herself - Interviewee). Craig DeRoche (Himself - Interviewee). Edição: Spencer Averick. Fotografia: Hans Charles. Kira Kelly. Trilha Sonora: Jason Moran. Duração: 100. Razão de aspecto: 1.78 : 1. Gênero: Documentary. Tags: netflix oscar2017

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