A Assassina
Wanderley Caloni, 2017-01-05

Esta é uma dica para os fãs de adaptações live-action de animes, para os fãs de filmes de lutas marciais sem sentido e para os fãs da cultura milenar do Oriente. A estilização por si só gera resultados bonitos, impressionantes e que entretem momentaneamente. É seguindo a contramão que A Assassina estiliza seu retrato perene de um momento na história da China para atingir não a beleza pela beleza, mas a introspecção do espectador em um mundo que não existe mais, mas que em algum momento do tempo era vívido, colorido e rico nas mentes das pessoas.

Nessa história não há necessariamente pessoas, mas ícones. Não acompanhamos um drama de um ponto de vista íntimo o suficiente para entendermos esta história como algo pessoal. Não há diálogos expositivos, nem momentos reveladores. Há apenas fatos que se sucedem como um contador de histórias daquela época, que não extrai moral alguma do que acontece, mas entende no fundo qual o drama desses pseudo-personagens, e através disso podemos, aí sim, tentar entender alguma coisa daquele mundo distante, eterno, mistificado.

Escrito por um batalhão de pessoas, a história é parcamente baseada em um pequeno conto de Pei Xing, um escritor que viveu a dinastia Tang, no século 9. Embora seja mais uma daquelas novelas em que uma assassina profissional, Nie Yinniang (o nome do conto), treinada por uma monja recebe como castigo por falhar em uma missão a tarefa de matar seu próprio primo, que na infância chegou a ser prometido como marido. O interessante aqui são os eventos em torno dos personagens principais e todo o comportamento daquelas pessoas. É um filme lento, difícil, sem muita tensão.

Porém, note como cada quadro, embora na maioria estático, possui em si seu significado. E note como as cenas de lutas possuem significado, também. Ninguém precisa descrever o que está acontecendo. O diretor Hsiao-Hsiao Hou deixa a tarefa de entender os intrincados jogos políticos e sociais da época para nós, e assim nos colocamos como espectador quase que onisciente de uma outra era, e assim como provavelmente os camponeses da época imaginavam, tudo aquilo era muito complexo, e o que eles conseguiam extrair era apenas uma certa beleza de movimentos, seja na narrativa ou nas lutas.

A Assassina não seria nada sem sua estética. O uso de músicas mínimas, quase sempre compostas com “instrumentos da época”, evocam aquele universo com precisão, em uma época onde o tempo passava muito lentamente. A largura de campo utilizada por Hsiao-Hsien é pouca, mas combina perfeitamente com pequenos quadros vivos que vão compondo uma história. E não há como não reparar que são quadros, já que a fotografia exuberante de Ping Bin Lee extrai cores fortes dos palácios e seus líderes, além de drená-las quando enfoca a natureza. Note como o vermelho está presente nas casas, mas nunca é visto ao ar livre. Exceto, é claro, pela belíssima vestimenta de Nie Yinniáng, que usa um preto com um pequeno tom de vermelho, um roupa cerimoniosa, que prenuncia um evento importante onde quer que ela passe.

Curioso como a face de Yinniáng não reflete seu poder na luta, sua capacidade de se esconder e matar pessoas discretamente. A atuação de Qi Shu é precisa, assim como todos na tela. Não há exageros em um filme sem diálogos, o que pode levar o espectador a dormir e não entender o que está se passando. Porém, a mais expressiva em cena é Qi Shu, e mesmo assim, mal podemos ver sua dor escondida em suas vestes e seus trejeitos cerimoniosos. Essa falta de carisma, aliás, é uma particularidade do diretor, que já em Three Times esboçava seu interesse pelo crescente desinteresse das pessoas umas com as outras e todas com a realidade. Da apaixonante primeira história somos levados a um corredor onde apenas dor e sentidos basais formam um indivíduo.

E é justamente isso que vemos em A Assassina na maioria do tempo, embora ela possua também as cenas de luta mais bem coreografadas e esteticamente impecáveis do ano. Mas isso está a serviço do prazer basal que Hsiao-Hsien demonstra em sua autoria, o que faz toda a diferença com live-actions animes que apenas arranham essa expressividade com caricaturas. Aqui temos a coisa real. Tão real que quase dormimos sonhando com ela.

★★★★☆ Cìkè Niè Yinniáng. Taiwan. 2015. Direção: Hsiao-Hsien Hou. Roteiro: Cheng Ah, T'ien-wen Chu, Hsiao-Hsien Hou, Hai-Meng Hsieh, Xing Pei. Elenco: Chen Chang (Tian Ji'an), Qi Shu (Nie Yinniang), Yun Zhou (Lady Tian), Satoshi Tsumabuki (The Mirror Polisher), Dahong Ni (Nie Feng), Mei Yong (Yinniang' Mother), Zhen Yu Lei (Tien Xing), Nikki Hsin-Ying Hsieh (Huji), Ethan Juan (Xia Jing). Edição: Chih-Chia Huang, Ching-Song Liao. Fotografia: Ping Bin Lee. Trilha Sonora: Giong Lim. Duração: 105. Aspecto: 1.37 : 1. Action. #torrent