A Bruxa

Jun 24, 2016

Imagens

Este terror faz jus a produções clássicas como O Exorcista (Friedkin, 1973), inovadoras como A Bluxa de Blair (Myrick, Sánchez, 1999) e instigantes como A Vila (Shyamalan, 2004), sem apelar inteiramente para nenhum desses três formatos. Conta uma lenda/conto antigo inglês e leva ao pé da letra muitas passagens, embora em todas elas haja a tal licença poética e o ponto de vista dos seus personagens, permitindo um verdadeiro jogo de interpretação para os que estiverem curiosos apenas pela sua história.

Porém, entre as maiores virtudes de A Bruxa, seu roteiro narrativo figura entre os menos interessantes. O seu forte está nos detalhes visuais, e como os detalhes dessa atmosfera sufocante. Às vezes se traduz em um plano-detalhe constante dos seios de Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha atingindo a puberdade, observados de perto pelo irmão mais novo, Caleb (Harvey Scrimshaw). E da mesma forma, se traduz na mesma filha despindo a camisa do religioso pai William (Ralph Ineson) que acabou de cair na lama. Mas não é apenas luxúria corporal, mas materialista, também. Vemos isso na perda da taça de prata da preocupada mãe, Katherine (Kate Dickie). É o jogo de mentiras sutis, mas vitais, mas que para uma família fervorosamente religiosa se traduz nos pecados capitais. É a interpretação da realidade sob a única ótica que existia naquela época, responsável por boa parte do mal-estar da civilização ocidental: a religião cristã.

O mais fascinante, porém, é perceber que este se constitui como o velho clichê de terror: a “cabana na floresta”. Mas, claro, com outras peças sobre o tabuleiro, e um final que mantém a dignidade de suas premissas mais básicas. Ninguém está salvo em uma cabana na floresta, pois todos possuem alguma marca, algo pelo qual se arrependem. Em Caleb, é a luxúria pela sua irmã. Em William, a incerteza se conseguirá sustentar sua família vivendo isolado do mundo. Em Katherine, é o desejo de retorno a civilização. E, é claro, em toda cabana reside uma virgem, uma pura, que será a salvação (para ela) ao mesmo tempo que a perdição (para os outros).

Utilizando a versão fantástica da história, os idealizadores do filme abraçam o sobrenatural exatamente como aquelas pessoas o abraçariam caso algo inexplicável acontecesse (mesmo que o inexplicável pudesse ser explicados alguns séculos depois). No entanto, usando o mesmo mecanismo de As Aventuras de Pi, por usar a religião tanto como explicação quanto como guia moral, ela é sutilmente condenada como o mal a ser expiado, mesmo que toda a família lute contra esse movimento irreversível no decorrer de todo o longa.

Os conceitos de bem e mal se invertem, e o que é certo para aquelas pessoas se torna seu pecado mortal. Talvez apreciando a beleza do relativismo histórico, ou apenas jogando símbolos abertos a interpretação para o espectador – como o fantástico Anti-Cristo – A Bruxa se torna um trabalho ambicioso por seguir à risca suas premissas sacrificando a facilidade de compreensão. Averso à religião, critica duramente o moralismo, e de fato não o faz, mas o ataca. Um trabalho que o espectador médio pode até gostar, mas irá se perguntar ao final da sessão o porquê. E isso é apenas o começo do interesse por este belo trabalho.

Wanderley Caloni, 2016-06-24. A Bruxa. The VVitch: A New-England Folktale (USA, 2015). Dirigido por Robert Eggers. Escrito por Robert Eggers. Com Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Julian Richings, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens. IMDB.