A Busca

Wagner Moura é um ator bem versátil. Seja como Capitão Nascimento ou Pablo Escobar, Moura consegue através do tom de voz e dos movimentos de corpo denotar alguém menos ou mais vulnerável, alguém mais ou menos estressado. Seu Theo Gadelha é um pai de família recém-separado que concentra em seus óculos todo seu jeito atrapalhado de lidar com o mundo, com sua esposa, seu filho e, principalmente, seu pai.

E esse é o gancho que consegue levar um filme inteiro a respeito desse pai buscando seu filho, que foge de casa. A competência da narrativa está em cima das costas de Moura, já que nem direção nem roteiro conseguem sair minimamente do medíocre. Luciano Moura é refém das tomadas circulares, até quando elas incomodam (como quando o personagem de Moura conversa com um sujeito à beira do rio, uma cena contemplativa, e não consegue extrair beleza das diferentes paisagens desta aventura, a não ser apelando para o digital e artificial uso de luzes, algo que o fotógrafo Adrian Teijido provavelmente teve que engolir a seco em seu tom sépia extremamente competente em montar uma realidade descolorida dessa família disfuncional. Para ter uma ideia da competência de Teijido, note como o azul dos azulezos da piscina muda de tom completamente no começo e no final do filme.

E o roteiro, escrito por Luciano Moura e Elena Soarez, beira o clichê em praticamente todos os momentos, elevando a emoção acima de qualquer lógica. Dessa forma, a família nunca se preocupa em procurar a polícia, e a aventura de Theo se resume em episódios convenientemente separados, sem qualquer ligação entre eles. Sem contar que em praticamente todos os lugares que Theo passa alguém viu passar seu filho, uma coincidência que o torna o pai em busca do filho perdido mais sortudo do mundo.

Além disso, o tempo que se passa no filme é irregular, não conseguimos perceber. Há a passagem de dias, mas que não justificam o comportamento aparentemente equilibrado dos personagens. Por que a mãe, por exemplo, preferiu ficar aguardando em sua casa, mesmo estando à beira de um colapso nervoso ao entrar no táxi?

Aliás, se denoto o talento de Moura, é em detrimento ao resto do elenco. Mariana Lima e Brás Antunes são peças funcionais em cenários que possuem a habilidade de ficarem parados, repetirem diálogos e, em muitos casos, até andar. Mas não passa muito disso. Moura, por outro lado, mantém sua consternação a todo momento, desafiando o espectador a encontrar a linha que delimita o lado civilizado de alguém que está desesperado procurando o filho e o lado mais instintivo, que obriga-o a fazer coisas que nunca faria, como roubar o celular de um velho senhor cardíaco.

Constituindo um conto extenso e intenso, mal construído em narrativa e direção, mas bem pontuado pela fotografia agradável, que surge de um sépia disfuncional para um colorido que se aproxima aos poucos, A Busca é um resultado misto, possivelmente esquecível, mas agradável em alguns momentos, engraçado em outros. É o velho-clichê que tenta ensinar os coxinhas a viverem, como se viver fosse sair de cavalo por aí, aparentemente sem correr risco nenhum, conversando apenas com pessoas boas e gentis. Afinal de contas, essa é a imagem do bom caipira, ou dos jovens não-corruptíveis, idealizado por uma esquerda em uma eterna ilusão.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-11-02. A Busca. A Busca (Brazil, 2012). Dirigido por Luciano Moura. Escrito por Luciano Moura, Elena Soarez. Com Wagner Moura (Theo Gadelha), Lima Duarte (Theo's Father), Mariana Lima (Branca), Brás Antunes (Pedro), Lucas de Araujo (China - garoto carona). imdb