A Casa Que Jack Construiu

Nov 9, 2018

Lars von Trier precisa urgentemente largar seu estilo. Ele o adotou mais fortemente em Ninfomaníaca (Volumes 1 e 2, onde sua narrativa episódica diminuiu levemente a qualidade de sua estrutura e o impacto do filme (além de ser longo, bem mais longo do que deveria). E aqui em A Casa Que Jack Construiu vê-se que a mesma estrutura é utilizada, mas em uma versão reduzida, o que virou inevitavelmente uma bagunça. O filme parece vilipendiado em prol da nossa percepção de que não há sentimentos por trás das ações de um serial killer. Porém, esta é uma faca de dois gumes, pois leva à conclusão de que ele não tem motivos. E o motivo que von Trier arruma para seu “herói” é simplesmente a busca da arte.

E isso, aliado a um trecho do filme onde ele exibe trechos dos seus outros filmes, implica em dizer que von Trier está falando de si mesmo. De uma maneira narcisista. Ele se vê como um artista incompreendido. E para este filme escolheu um serial killer.

É simplesmente repugnante.

Porém, há um fiapo do filme que permaneceu superficialmente interessante. Se observarmos o começo da narrativa do seu anti-herói, Jack (Matt Dillon sem ter muito o que fazer) perceberemos que na primeira vítima que ele nos descreve há um ponto crucial de identificação e “desidentificação” com o espectador. A personagem de Uma Thurman é um pé no saco. Isso nos leva a desejar que Jack seja de fato o serial killer que ela insistentemente brinca ser. E – adivinhem – Jack de fato é um serial killer. E a acerta na cabeça com um macaco de carro. Nesse momento seria o que qualquer pessoa sensata pensaria em fazer. Pensaria, mas não faria. Jack pensou. E fez. Eis a separação entre uma pessoa normal e um psicopata.

Da mesma forma, sua vulnerabilidade em vermos que ele possui um Transtorno Obsessivo Compulsivo com limpeza, onde ele tenta insistentemente verificar se a cena do seu próximo crime narrado está sem manchas de sangue – e de onde sua desculpa para entrar na casa da vítima beira o patético risível – nos diz que o filme ainda tenta manter nossa empatia com o protagonista. E o último traço desse fiapo de filme que poderia se tornar deveras interessante é quando ele de fato traça um rastro – de sangue – por vários quilômetros de estrada.

E para por aí.

As brutalidades do filme, onde Trier nos mostra graficamente Jack abatendo suas vítimas, são meros shows bizarros de brutalidade humana em que completos desconhecidos são almejados. Talvez o objetivo seja não nos fazer ter empatia e compaixão por essas pessoas – mulheres ingênuas e até crianças – mas ao mesmo tempo ele nos torna perigosamente cúmplices dos atos abomináveis de Jack. Porém, aqui há uma diferença: Jack diz que sua motivação é criar obras de arte – um clichê de alguns serial killers pela história e literatura – mas nós, espectadores, não sentimos exatamente assim.

Diferente das curiosíssimas analogias traçadas pelo ouvinte de Joe em Ninfomaníaca, onde uma pessoa que viveu sua vida dependente de sexo é analisada por alguém que não conhece nada sobre o assunto, aqui o “ouvinte” de Jack não possui uma personalidade tão constrastante e nem tão divertida. A consequência é que não há humor aqui. Apenas uma triste e doentia existência.

A câmera de von Trier está freneticamente em movimento, com um close ligeiramente alto demais, correndo com o seu herói, acompanhando a ação que se torna realista demais. Não é bonito. É estranho. Gera sentimentos mistos em relação à violência. Não sei se pode-se dizer que é uma questão de gosto. No meu gosto há algo de podre em todo esse projeto.

Potencialmente cortado para se tornar comercialmente viável, ou evitando mostrar demais sobre o personagem para não nos sentirmos estranhamente relacionados a ele, “A Casa Que Jack Construiu” soa incompleto e com excesso de estilo do diretor. É um filme narcisista que usa os cacoetes de seu idealizador diretamente para os fãs. Os fãs do diretor, não necessariamente de Cinema.

Espero que seja o último filme com esse estilo.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-11-09. The House That Jack Built. Dinamarca, França, Alemanha, Suécia, 2018. Escrito por Lars von Trier baseado na história de Jenle Hallund. Dirigido por von Trier. Com Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman. Serial killer, violência, inferno de Dante, simbologia, niilismo.