A Causa e a Sombra

Oct 31, 2016

Imagens

Um filme sobre as pessoas torturadas e presas pela ditadura no Brasil nas décadas de 6070 que se esquece de avisar ao espectador qual era o grande medo da população e dos militares caso os “revolucionários militantes” chegassem ao poder. Na verdade, é pior, pois se ao menos o filme se mantivesse centrado apenas no aspecto humano seria minimamente interessante, além de servir de alerta sobre a falta de limites do Estado. Mas é claro que ele precisa pintar aquelas pessoas como verdadeiros mártires, algozes e inspiradores de justiça, o que explica parcialmente a motivação dessas pessoas (só queriam ajudar os miseráveis, claro) quando no fundo se tornaram terroristas quando descobriram que não havia concordância nos planos mais gerais de ataque a Brasília.

O núcleo da história é Alípio de Freitas, um ex-padre português que, vendo a miséria brasileira (e comparando com a pobreza de Portugal) se torna um militante de esquerda com a ajuda da classe média paulistana (mas a boa classe média, não a fascista). Juntos montam diversos esquemas, se reúnem, formam grupos. Tudo para frustrar os planos da CIA e do governo militar (evitar ataques comunistas em plena Guerra Fria). Com o tempo vão sendo capturados e torturados para revelarem informações sobre os grupos formados. Muitos permanecem presos para servir de lição para os outros e para se manterem fora de circulação.

A direção de Tiago Afonso é competente ao conseguir trazer uma narrativa com fluidez, em uma história que é contada aos poucos por cada um dos envolvidos. Juntos eles conseguem formar um mosaico que recria parte dos acontecimentos daquela época, como eram realizadas as torturas e como cada um reagia ao horror da violência humana. Abrindo e fechando a história de forma coerente, o filme em si, como contador de histórias, não é ruim, pois possui uma cadência interessante.

E o filme se passa quase como uma série de conversas informais, o que acaba se tornando agradável. Além disso, os entrevistados, apesar de não serem bom em falar, transformam a falta de eloquência em simpatia. O próprio Alípio, apesar de cheio de cacoetes (“pois”; “etc, etc”) e pausas desconfortáveis, mantém um discurso sucinto que descreve até com certa precisão tanto a organização dos militantes quanto o que acontecia com os presos políticos.

Então, o que torna o filme ruim? Ideologia, basicamente. Mutilado para dar a sensação que todos da esquerda possuem até hoje – que os torturados foram heróis porque foram… torturados – o roteiro de Afonso convenientemente ignora não só os reais motivos dos revolucionários (instituir o comunismo no Brasil) como coloca no lugar a mesma visão que a esquerda tem de figuras como Che Guevara; não como o homofóbico assassino e covarde da revolução cubana, mas como o herói das massas, o médido humanitário, o aventureiro da América Latina.

E esse tipo de pecado é difícil de ser perdoado em um documentário em plena época da internet. Aliás, a própria visão da esquerda é tão imperdoável quanto o falso moralismo da direita nos dias de hoje. Fica quase impossível forjar heróis que não sejam da ficção, como a empregada do panfleto comunista de Que Horas Ela Volta? Esse, sim, é um filme feito para enganar. E esse sim merece todos os louros pela sua bem elaborada fantasia.

Wanderley Caloni, 2016-10-31. A Causa e a Sombra. A Causa e a Sombra (Portugal, 2015). Dirigido por Tiago Afonso. Escrito por Tiago Afonso. IMDB.