A Chegada

2017/02/04

Denis Villeneuve (Incêndios, Os Suspeitos, O Homem Duplicado) nos apresenta uma ficção científica completamente focada em seu drama. Tudo o que está além da realidade no filme nos serve como reflexão sobre as falhas de comunicação da humanidade como um todo, e uma reflexão ainda maior sobre a falha de comunicação dos nossos sentimentos uns para com os outros. A Chegada imortaliza um conceito apresentando-o da maneira mais perfeccionista possível. É um filme basicamente sobre ideias, não sobre ação, aventura ou terror. Mas, ainda assim, o tema sonoro composto por Jóhann Jóhannsson se torna icônico justamente pelo incômodo que suas notas arrítmicas geram, além da estranheza de cordas. A fotografia acinzentada nos fornece pistas de um mundo ainda sob forte ameaça de desestabilizar, como comprovam as primeiras horas e depois dias depois que doze naves, como os apóstolos de Cristo (mas sem o Salvador), pousam em localizações que não fazem o menor sentido político hoje. Até porque este não é um filme político antes de tudo, mas sobre conhecimento e os problemas da cooperação.

A fotografia e os padrões enxergados pelo diretor revelam desde o começo sua sensibilidade visual, como podemos constatar pela câmera que foca em um teto onde os padrões indicam linhas que se dirigem ao chão, vindas do céu. O uso da contra-luz coloca a heroína da história (sim, uma heroína, nos mesmos moldes genéricos de Ellie em Contato) e muitos elementos em tela apenas como borrões ou figuras genéricas que dançam em uma realidade alternativa, onde começo, meio e fim se confundem. Villeneuve também aproveita o tema e homenageia quase que de maneira obrigatória, mas ainda assim, à altura, trabalhos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Tudo isso em seus enquadramentos, a visão dos astronautas tocando com a mão uma gigantesca nave que se suspende no ar, e cuja cor negra lembra de cara o monolito do filme de Stanley Kubrick.

A personagem de Amy Adams, Louise Banks, uma linguista de prestígio pela sua competência e uma solitária talvez pelo mundo que hoje vivemos, é a chave para compreendermos o que está acontecendo com a história em momentos-chave, onde a complexidade inerente dos roteiros escolhidos pelo diretor faz jus à sua fama. Porém, não desanime. Nesse caso o resultado final está longe de interpretações como O Homem Duplicado. Aqui vale mais apenas a imaginação de possibilidades do espectador. O filme não entregará sua jogada final de bandeja, mas dará pistas boas o suficiente para que qualquer espectador empenhado em assistir o filme entenda. A atuação de Adams é automática. Sua personagem possui o fascínio como única característica marcante. Enquanto isso, Jeremy Renner faz par ao estilo de Matthew McConaughey em Contato. Ele é um coadjuvante de luxo, mas possui mais presença de palco do que Adams, ainda que com pouquíssimo bons diálogos. Já, por falar em diálogo, o coronel de Forest Whitaker é praticamente perfeito sem dizer qualquer palavra relevante. Sua expressão resoluta e ao mesmo tempo protocolar rima com sua posição de controle diplomático quando o vemos em frente aos inúmeros monitores (novamente em contra-luz).

Este é um filme que, assim como todos os grandes filmes de sci-fi, irá fazer você ter debates acalorados entre cinéfilos inteligentes, e sempre te fará ter uma visão nova da realidade. E, diferente do infelizmente medíocre Interestelar de Christopher Nolan, este está embasado em personagens reais, que ainda que simples, convencem do começo ao fim. Não é preciso muita complicação para as coisas fazerem sentido.

Mas é necessário alguma coragem para apresentar a decisão final da Dra. Banks. É uma decisão polêmica entre as massas, assim como uma visita alienígena. Porém, pense por alguns minutos e verá que às vezes não há muito o que fazer em relação às nossas decisões quando pensamos no que é moralmente correto. E, de quebra, um significado amplo, múltiplo, do título de um filme que já promete ser um clássico no futuro.

★★★★★ Título original: Arrival. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer. Ted Chiang. Elenco: Amy Adams (Louise Banks). Jeremy Renner (Ian Donnelly). Forest Whitaker (Colonel Weber). Michael Stuhlbarg (Agent Halpern). Mark O'Brien (Captain Marks). Tzi Ma (General Shang). Abigail Pniowsky (8-Year-Old-Hannah). Julia Scarlett Dan (12-Year-Old-Hannah). Jadyn Malone (6-Year-Old-Hannah). Edição: Joe Walker. Fotografia: Bradford Young. Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson. Duração: 116. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Drama. Tags: popcorntime oscar2017

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