A Comunidade

Aug 4, 2016

Imagens

Thomas Vinterberg (A Caça, Submarino) parece ser um diretor obcecado em entender relações humanas. Em A Comunidade, ele nos leva para o misterioso mundo do apego emocional, nos jogando para o mundo onírico dos anos 70 e o confundindo com nossa história seres humanos convivendo com outros. No processo, ele esfrega na cara a realidade do “poliamor”, ou pelo menos uma de suas vertentes. Tudo bem, Vinterberg, “o sonho acabou”. Mas precisava ser tão incisivo?

A história começa quando um professor de arquitetura herda a grande casa onde viveu a infância e tem a decisão do que fazer com ela. Embalada em altos custos, a propriedade não conseguiria ser custeada por sua pequena família de três pessoas (ele, a esposa, a filha adolescente – ou “os nossos olhos no filme”). No entanto, sua mulher, Anna, começa a desejar um pouco de mudança naquela rotina de mais de quinze anos, e sugere convidar amigos e conhecidos para dividir aquele grande espaço de convivência.

O que se torna uma prazerosa ideia no começo, graças à fotografia estimulante de Jesper Tøffner, que nos mostra a década da paz e do amor petrificada em cores pálidas e saudosas, embalada por músicas famosas da época e por uma direção de arte que com o mínimo faz o máximo: entrarmos naquele universo e não querermos sair mais.

A direção de Vinterberg, cuja câmera começa com uma profundidade de campo aberta para mostrar a grandiosidade da casa, mas conforme ela lota de pessoas aos poucos vai se tornando mais precisa, com muitos closes e profundidade reduzida, aos poucos se mostra acertada para extrair daquela situação de comunidade um drama peculiar, que nasce naturalmente e que sofre naturalmente. Os personagens vivem essa época de sonhos, mas possuem o pé no chão, o que torna tudo ainda mais fascinante. Não é um filme “que viaja” nos conceitos, mas prefere se prender ao básico para entender uma questão primordial para a convivência humana: até onde vai nosso apego pelas pessoas?

Para responder essa questão, o filme precisa invadir aquele universo perfeito em suas imperfeições, que já não queremos mais sair, e inserir elementos que vão nos jogar contra a parede, e uma personagem em específico. O pior é que o roteiro desde o começo já indica algo nesse sentido, mas o filme com toda sua beleza nos faz esquecer dos detalhes por uma longa hora. Chega um momento que a conta chega e a realidade bate à porta.

Perseguindo a resposta para a questão do apego, A Comunidade merece aplausos não por ter essa resposta, mas por persegui-la até as últimas consequências. Porque se o sonho acabou, pelo menos eu quero descobrir o que deu errado. Para não repetir na próxima década.

Wanderley Caloni, 2016-08-04. A Comunidade. Kollektivet (Denmark, 2016). Dirigido por Thomas Vinterberg. Escrito por Tobias Lindholm, Thomas Vinterberg. Com Ulrich Thomsen, Fares Fares, Trine Dyrholm, Julie Agnete Vang, Helene Reingaard Neumann, Lars Ranthe, Ole Dupont, Martha Sofie Wallstrøm Hansen, Magnus Millang. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.