A Comunidade

Thomas Vinterberg (A Caça, Submarino) parece ser um diretor obcecado em entender relações humanas. Em A Comunidade, ele nos leva para o misterioso mundo do apego emocional, nos jogando para o mundo onírico dos anos 70 e o confundindo com nossa história seres humanos convivendo com outros. No processo, ele esfrega na cara a realidade do “poliamor”, ou pelo menos uma de suas vertentes. Tudo bem, Vinterberg, “o sonho acabou”. Mas precisava ser tão incisivo?

A história começa quando um professor de arquitetura herda a grande casa onde viveu a infância e tem a decisão do que fazer com ela. Embalada em altos custos, a propriedade não conseguiria ser custeada por sua pequena família de três pessoas (ele, a esposa, a filha adolescente – ou “os nossos olhos no filme”). No entanto, sua mulher, Anna, começa a desejar um pouco de mudança naquela rotina de mais de quinze anos, e sugere convidar amigos e conhecidos para dividir aquele grande espaço de convivência.

O que se torna uma prazerosa ideia no começo, graças à fotografia estimulante de Jesper Tøffner, que nos mostra a década da paz e do amor petrificada em cores pálidas e saudosas, embalada por músicas famosas da época e por uma direção de arte que com o mínimo faz o máximo: entrarmos naquele universo e não querermos sair mais.

A direção de Vinterberg, cuja câmera começa com uma profundidade de campo aberta para mostrar a grandiosidade da casa, mas conforme ela lota de pessoas aos poucos vai se tornando mais precisa, com muitos closes e profundidade reduzida, aos poucos se mostra acertada para extrair daquela situação de comunidade um drama peculiar, que nasce naturalmente e que sofre naturalmente. Os personagens vivem essa época de sonhos, mas possuem o pé no chão, o que torna tudo ainda mais fascinante. Não é um filme “que viaja” nos conceitos, mas prefere se prender ao básico para entender uma questão primordial para a convivência humana: até onde vai nosso apego pelas pessoas?

Para responder essa questão, o filme precisa invadir aquele universo perfeito em suas imperfeições, que já não queremos mais sair, e inserir elementos que vão nos jogar contra a parede, e uma personagem em específico. O pior é que o roteiro desde o começo já indica algo nesse sentido, mas o filme com toda sua beleza nos faz esquecer dos detalhes por uma longa hora. Chega um momento que a conta chega e a realidade bate à porta.

Perseguindo a resposta para a questão do apego, A Comunidade merece aplausos não por ter essa resposta, mas por persegui-la até as últimas consequências. Porque se o sonho acabou, pelo menos eu quero descobrir o que deu errado. Para não repetir na próxima década.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-08-04 imdb