A Conversação

Nov 16, 2013

Imagens

Geralmente quando o Cinema se volta para si mesmo (rendendo boa parte das vezes filmes memoráveis) ele nunca pensa em descrever como o som é importante. Direção, atores, fotografia, trilha sonora, tudo isso parece relevante para o público médio. Mas o som, esse pobre coitado, é renegado à posição de “quanto mais invisível, melhor”.

Não estou falando de explosões e tiros, é claro. Estou falando dos detalhes imperceptíveis, mesmo. Uma porta se abrindo. Passos pelo corredor. Uma folheada de um livro. Esses detalhes passariam despercebidos em A Conversação se o personagem de Gene Hackman, Harry Caul, não fosse um profissional obcecado pelo perfeccionismo técnico (além do ético).

Harry realiza seu trabalho mais impressionante, e o filme começa presenciando isso: gravar a conversa de um casal no meio de uma grande praça no horário do almoço de um centro comercial. Dezenas a centenas de pessoas passando pelo local. Barulhos e interrupções constantes. Tudo isso registrado com o cuidado característico de Coppola (O Poderoso Chefão, Tetro), um diretor sensível para os detalhes que o espectador espera ver. Nesse caso, o detalhe primordial é o som. Acompanhamos esse diálogo no início do filme, mas parte dele está encoberto por problemas técnicos. Harry precisa editá-lo usando três botões, A B C, e fazer sua mágica revelar o que o casal está dizendo. O som ganha relevo e vira quase um personagem.

A fascinação que surge diante de um profissional desses apenas rivaliza com sua obsessão em permanecer anônimo. Seus clientes geralmente lhe pedem escutas de conversas reveladoras apenas para eles, cujo conteúdo Harry solenemente e profissionalmente ignora. Ciente do perigo que é para as pessoas em sua volta, vive uma rotina métódica de fantasma. Não tem telefone, não tem amigos, e sua companheira não sabe onde ele mora e o que faz. Tudo isso vamos descobrindo apenas acompanhando os passos desse homem calado. Para quem analisa tão profundamente os efeitos do som no ambiente Harry é alguém que não interfere nesse mesmo ambiente.

Sua vida parecia inerte por anos, até que suas dúvidas a respeito de que seus atos podem estar prejudicando seriamente a vida do casal que escutou o faz repensar seus atos. Sua moral religiosa também faz parte do repertório de métodos para não enlouquecer sozinho. Suas decisões a partir daí também são silenciosas. Conforme seu mundo vai mudando, percebemos seu desmoronamento apenas em seu olhar e seu jeito de andar. Todo o resto fica por conta dos sons ao redor. Que trabalho mais fascinante o de trabalhar com ecos invisíveis!

Wanderley Caloni, 2013-11-16. A Conversação. The Conversation (USA, 1974). Dirigido por Francis Ford Coppola. Escrito por Francis Ford Coppola. Com Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Frederic Forrest, Cindy Williams, Michael Higgins, Elizabeth MacRae, Teri Garr, Harrison Ford. IMDB.