A Corte

2016/06/01

Um filme leve e encantador. E isso porque seu núcleo é o julgamento do assassinato de um bebê pelo seu pai. Porém, nem de longe esse é o assunto principal. O que o filme quer discutir, e o faz com propriedade, é esse palco que se monta em torno de réu e testemunhas – a plateia – para a criação de uma pela interpretada por atores de improviso – o júri – dirigidos pelo protagonista supremo desta farsa – o juiz.

Que amanhece fortemente gripado e logo é alvo de fofocas por ter sido visto saindo de uma boate, sendo que na verdade foi em busca de remédios. Ou seja, logo no começo é colocada essa questão da interpretação dos “fatos”, e como eles podem ser infinitamente revistos. Uma das virtudes do filme é nunca deixar claro qual é a verdade, pois ela não interessa, já que não pertencem àquelas pessoas.

Da mesma forma acompanhamos o relacionamento do juiz com sua ex-enfermeira e agora jurada do caso (a bela Sidse Babett Knudsen) sempre com um dos olhos olhando de canto, aguardando algum momento indelicado. Ele não acontece. A interpretação de Fabrice Luchini como o juiz Michel Racine constrói um personagem calmo e contido, onde a separação recente com sua esposa é tratado de maneira mais cordial possível. Um diplomata na arte de conflitos, toda sua calma e reverência é usado no “palco” para incitar ambos os lados e manipular de maneira tão sutil que imperceptível – ou melhor: “inacusável”. Ninguém em sã consciência iria acusar um ser humano por ser humano.

E é isso que “A Corte” mostra a todo o momento. Não importam as atuações, o lengalenga, a campainha de entrada dos jurados e a solenidade do juramento. Tudo besteira. No final das contas, a justiça sequer pode ter sido feita, pois a verdade é uma dádiva entregue a poucos; talvez nenhum. O grande drama que o filme consegue nos entregar é essa leveza de espírito em saber que nada sabemos, e a esperança de não termos errado muito. De qualquer forma, pouco importa. Não seremos nós o réu da vez.

Dessa forma, o filme se torna um verdadeiro estudo de personagem(ns), já que nossas observações recaem particularmente na personalidade de Racine, que insiste em ser chamado de Meritíssimo, e que gosta de andar com seu cachecol vermelho porque, confessa, nunca soube se vestir direito. Então, pelo menos que o vejam pelo cachecol, que é charmoso.

E na corte, ele usa uma roupa ainda mais vistosa, e aperta uma campainha para entrar, onde todos se levantam. Ele coordena os diálogos, é o diretor da peça que decide o destino do réu. Acaba reencontrando a ex-enfermeira que o havia cuidado quando sofreu um gravíssimo acidente; há algo de platônico em sua relação; e algo proibido por ela ser jurada. A leveza do filme se encontra em não usar isso como motivo para tensão. Afinal de contas, como vemos desde o início, todos os jurados estão presentes pelos motivos errados. Todos estão curiosos ou surpresos com o suposto assassinato; a maioria desempregada. E é bom participar de um teatrinho de vez em quando.

Há vários símbolos que se escondem nessa história simples. A maçã, por exemplo, que é usada até na única música do filme, cantada em inglês. A música diz que os frutos da árvore crescem por um leve raio de sol. Vemos Racine, o juiz, comer uma maçã com um verme dentro; ele afasta o verme. Ele não se incomoda em conviver com vermes de todos os lados.

E qual o sentido de tudo isso? Apenas o que parece ser. Não há nada que chame mais a atenção do que um julgamento. Exceto, talvez, quando nada nos bastidores acontece de errado; a ausência de tensão é uma verdadeira tensão ao contrário. Nos vemos tensos ao pensar nas coisas que podem estar fora do “protocolo” da justiça, nos esquecendo que toda essa enganação de justiça ideal nunca irá pertencer ao mundo dos humanos.

★★★★☆ L'hermine. France, 2015. Direction: Christian Vincent. Script: Christian Vincent. Cast: Fabrice Luchini. Sidse Babett Knudsen. Eva Lallier. Corinne Masiero. Sophie-Marie Larrouy. Fouzia Guezoum. Simon Ferrante. Abdellah Moundy. Serge Flamenbaum. Edition: Yves Deschamps. Cinematography: Laurent Dailland. Soundtrack: Claire Denamur. Runtime: 98. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Comedy. Category: movies Tags: cabine

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