A Culpa é das Estrelas

O que torna A Culpa das Estrelas tão fascinante como romance é sua despreocupação em soar “cinematográfico”, ou seja, com seus diálogos inesquecíveis, interpretações profundas e momentos chorosos, mesmo que ele tenha tudo isso. A diferença é que ele assume suas próprias fraquezas e limites ao criar uma história cheia de filosofia pop/adolescente que nos faz sentir como seus personagens, mesmo sem a necessária profundidade para os temas que aborda. Quem se importa em soar original ou explorar o âmago de questões universais quando se está com câncer, ou quando se tem apenas 80 anos de vida (com sorte) nesse planeta? Melhor do que tentar soar importante é ser acessível, e isso é possível dizer dessas pessoas.

Essa é uma história de amor não-convencional entre Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort), dois jovens adoráveis que possuem um passado cancerígeno corroendo seus potenciais bons momentos na fase onde temos energia e ideias de sobra, o que já não é o caso para Hazel, que possui problemas respiratórios, e tenta não ser o caso para Gus, que tenta converter seus dramas em algo positivo e original, ainda que sua feição “ciborgue” tenha sido causada pela amputação de uma perna para conter as “células do mal”.

E por falar em mal, ele não existe aqui em quantidades visíveis, ou ao menos de maneira personificada. Não, o vilão não é o escritor do romance favorito de Hazel. Antes disso, ele é a voz da razão, ou melhor dizendo, da realidade fria e crua. Podemos o odiá-lo por ser um babaca, mas não podemos ignorar que seu discurso possui a lógica que falta nos jovens apaixonados, justamente por ser ríspida e não ver sentimentos. Nesse sentido a sequência que se inicia na casa do já citado escritor e termina no último andar na casa que foi o esconderijo de Anne Frank é irretocável em sua catarse mental e emocional que nos acompanha conforme cada degrau é inacreditavelmente conquistado por Hazel, ao som de fundo de um monólogo do diário de Anne nos situando moralmente naquela exploração do indivíduo de seus próprios limites.

A conclusão desse romance que tem data marcada pode ser previsível como as centenas de romances parecidos que já vimos, mas não deixa de ter sua originalidade no sorriso desses jovens e seus pensamentos a respeito da mortalidade. Às vezes é difícil simplificar a dor e a gratidão que sentimos por determinada pessoas, quase como se ela fosse infinita e indescritível. No entanto, alguns infinitos são maiores que outros. A Culpa das Estrelas possui um pequeno infinito de pensamentos que mereceria ser revisitado de tempos em tempos antes de morrermos.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-06-14. A Culpa é das Estrelas. The Fault in Our Stars (USA, 2014). Dirigido por Josh Boone. Escrito por Scott Neustadter, Michael H. Weber, John Green. Com Shailene Woodley, Ansel Elgort, Nat Wolff, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe, Lotte Verbeek, Ana Dela Cruz, Randy Kovitz. imdb