A Dama de Ferro

2012/03/04

Ao terminar o filme temos a nítida impressão que ele foi dirigido por alguém que possui ideias completamente repulsivas a respeito da figura de Margaret Thatcher e/ou sobre a ideia de uma mulher governando uma nação. Ou isso ou não temos aí um estudo de personagem (histórico), mas simplesmente um pseudo-documentário que tenta ilustrar tanto a vida pessoal quanto política de uma das mulheres mais significativas do nosso século, mas sem conseguir unificá-la em um ser inteligível, sugerindo de uma forma covarde e inescrupulosa que, bem, se as coisas aconteceram daquela maneira, foi porque estávamos falando de uma mulher que não soube o seu lugar.

De qualquer forma, a fotografia sóbria e fria nos leva para o campo das memórias (delírios?) de uma pessoa agora já no fim de sua vida, sozinha nos pensamentos, mas que tenta não se render à sua decadente posição. Ironicamente é através dela que teremos acesso à sua história. E só pode ser ironia, porque a própria pessoa não consegue estabelecer uma lógica que defina seu raciocínio, seja como esposa ou como ministra. E se temos a esperança que as coisas venham a se encaixar durante a evolução da história, ledo engano. Na verdade, elas pioram, e se tornam episódicas (como a odiável guerra das Malvinas, que nem o pessoal da legendagem teve a coragem de nomeá-las de Ilhas Falkland).

É irônico também que vejamos a ministra Thatcher dando ordens e discursos vazios, pois em nada acrescentam à sua já conhecida história, pois continuam desamarradas de suas convicções. Quer dizer, existem convicções, mas essas são genéricas demais para estabelecerem uma relação entre a figura política e a pessoa por trás de suas palavras.

A direção apenas piora isso, inserindo idas e vindas que nada acrescentam e em muito complicam. Ao final temos a sensação de realmente nunca termos conhecido MT como esperaríamos de um filme sobre sua vida. Se em Cidadão Kane isso é uma virtude, pois afinal estamos ouvindo o depoimento de diversas pessoas que conheciam cada um uma faceta do magnata, em A Dama de Ferro é um grave defeito, pois as impressões vem direto da própria pessoa, e não há prova mais incontestável das contradições da história do que a última cena, onde vemos nossa protagonista realizar um ato que por si só é simbólico para os espectadores atentos que notarem um dos seus primeiros discursos, voltado para o estereótipo da mulher. Se isso não é covardia cinematográfica, difícil saber o que é.

★★☆☆☆ The Iron Lady. UK, 2011. Direction: Phyllida Lloyd. Script: Abi Morgan. Cast: Meryl Streep. Jim Broadbent. Susan Brown. Alice da Cunha. Phoebe Waller-Bridge. Iain Glen. Alexandra Roach. Victoria Bewick. Emma Dewhurst. Edition: Justine Wright. Cinematography: Elliot Davis. Soundtrack: Thomas Newman. Runtime: 100. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Biography. Category: movies

Share on: Facebook | Twitter | Google