A Economia do Amor

A França sofre a crise europeia através dos cinemas, que mostram cada vez mais filmes criticando a falta de humanidade em pessoas que estão sofrendo as agrúrias de tentar socializar riqueza com todo mundo (até imigrantes intolerantes). O preço disso é o desmanche sistemático de famílias, como a vista neste filme. Porém, embora a questão seja levantada de uma maneira sutil pelo filme, não há como negar que o objetivo do diretor Joachim Lafosse é jogar a culpa na mesquinhez e egoísmo das pessoas que escolheram viver para si mesmas. Que horror que as pessoas escolham cuidar de suas vidas!

Porém, justiça seja feita. A personagem é idealizada por Bérénice Bejo como a mãe responsável, dona do dinheiro que possibilitou a obtenção do teto onde moram e iniciadora de um processo lento e doloroso de separação (graças à falta de dinheiro do marido), e dona de si mesma em suas decisões. Enxergamos no filme que sua Marie sofre pela decisão tomada, mas que se mantém resoluta como uma questão de princípio: não suporta mais olhar para seu marido, um farrapo humano que parasita a vida da família e que agora coloca a culpa justamente no egoísmo de Marie, e que exige receber “sua parte” do negócio chamado casamento, insultando-a através de sua mãe e de sua herança/ajuda dos pais, como se isso fosse de alguma forma demérito frente à capacidade do marido de trabalhar.

Pois bem. Trabalhar é útil e virtuoso, além de trazer comida para casa. Mas o personagem do ótimo Cédric Kahn é apenas uma sombra do que foi antes dos problemas financeiros causados pelo seu descontrole baterem à porta, ameaçando sua integridade física e seu próprio ego. Seu Boris anda cabisbaixo, desmerecido, mas que ainda tenta julgar sua mulher e ainda se fazer de vítima, ainda que de maneira sutil, como as pessoas com essa forma de caráter gostam de fazer. Sentam à mesa onde não foram convidados pela anfitriã e exigem compartilhar de queijo e vinhos enquanto expõe a situação horrível em que foi colocado (por ele mesmo).

A câmera de Joachim Lafosse grava quase tudo centrado na casa (o objeto de disputa) e quase não se mexe. Lafosse se limita em girá-la de uma posição-chave escolhida onde pode enxergar as pessoas entrando na porta da frente, indo à cozinha, se retirando para seus quartos. Quase não se vê o jardim de fora, e a claustrofobia não está na casa em si, mas no fato das pessoas serem obrigadas a viver juntas uma situação que não desejam mais.

O único momento em que o cenário muda é em uma situação de emergência. E a escolha pelo final realista dos quatro roteiristas envolvidos é ótima por esfregar na cara do espectador um pouco de realidade. Se isso irá fazê-lo refletir a respeito da realidade em si, ou sonhar, como Boris, a respeito do que acontecem com sua vida para que ele perdesse as rédeas, não se sabe. No entanto, A Economia do Amor é um trabalho simplista e ao mesmo tempo competente, pois usa o que tem em mãos para gerar a tensão necessária para observarmos como o dinheiro, mais precisamente a sua falta, é o que torna famílias miseráveis. E dinheiro é consequência das pessoas que nela existem. Ignorar isso é o que a França vem fazendo há décadas. O que estamos vendo hoje é apenas reflexo das consequências de ignorar a realidade.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-11-21 imdb