A Economia do Amor

Nov 21, 2016

Imagens

A França sofre a crise europeia através dos cinemas, que mostram cada vez mais filmes criticando a falta de humanidade em pessoas que estão sofrendo as agrúrias de tentar socializar riqueza com todo mundo (até imigrantes intolerantes). O preço disso é o desmanche sistemático de famílias, como a vista neste filme. Porém, embora a questão seja levantada de uma maneira sutil pelo filme, não há como negar que o objetivo do diretor Joachim Lafosse é jogar a culpa na mesquinhez e egoísmo das pessoas que escolheram viver para si mesmas. Que horror que as pessoas escolham cuidar de suas vidas!

Porém, justiça seja feita. A personagem é idealizada por Bérénice Bejo como a mãe responsável, dona do dinheiro que possibilitou a obtenção do teto onde moram e iniciadora de um processo lento e doloroso de separação (graças à falta de dinheiro do marido), e dona de si mesma em suas decisões. Enxergamos no filme que sua Marie sofre pela decisão tomada, mas que se mantém resoluta como uma questão de princípio: não suporta mais olhar para seu marido, um farrapo humano que parasita a vida da família e que agora coloca a culpa justamente no egoísmo de Marie, e que exige receber “sua parte” do negócio chamado casamento, insultando-a através de sua mãe e de sua herança/ajuda dos pais, como se isso fosse de alguma forma demérito frente à capacidade do marido de trabalhar.

Pois bem. Trabalhar é útil e virtuoso, além de trazer comida para casa. Mas o personagem do ótimo Cédric Kahn é apenas uma sombra do que foi antes dos problemas financeiros causados pelo seu descontrole baterem à porta, ameaçando sua integridade física e seu próprio ego. Seu Boris anda cabisbaixo, desmerecido, mas que ainda tenta julgar sua mulher e ainda se fazer de vítima, ainda que de maneira sutil, como as pessoas com essa forma de caráter gostam de fazer. Sentam à mesa onde não foram convidados pela anfitriã e exigem compartilhar de queijo e vinhos enquanto expõe a situação horrível em que foi colocado (por ele mesmo).

A câmera de Joachim Lafosse grava quase tudo centrado na casa (o objeto de disputa) e quase não se mexe. Lafosse se limita em girá-la de uma posição-chave escolhida onde pode enxergar as pessoas entrando na porta da frente, indo à cozinha, se retirando para seus quartos. Quase não se vê o jardim de fora, e a claustrofobia não está na casa em si, mas no fato das pessoas serem obrigadas a viver juntas uma situação que não desejam mais.

O único momento em que o cenário muda é em uma situação de emergência. E a escolha pelo final realista dos quatro roteiristas envolvidos é ótima por esfregar na cara do espectador um pouco de realidade. Se isso irá fazê-lo refletir a respeito da realidade em si, ou sonhar, como Boris, a respeito do que acontecem com sua vida para que ele perdesse as rédeas, não se sabe. No entanto, A Economia do Amor é um trabalho simplista e ao mesmo tempo competente, pois usa o que tem em mãos para gerar a tensão necessária para observarmos como o dinheiro, mais precisamente a sua falta, é o que torna famílias miseráveis. E dinheiro é consequência das pessoas que nela existem. Ignorar isso é o que a França vem fazendo há décadas. O que estamos vendo hoje é apenas reflexo das consequências de ignorar a realidade.

Wanderley Caloni, 2016-11-21. A Economia do Amor. L'économie du couple (France, 2016). Dirigido por Joachim Lafosse. Escrito por Fanny Burdino, Joachim Lafosse, Mazarine Pingeot, Thomas van Zuylen. Com Bérénice Bejo (Marie Barrault), Cédric Kahn (Boris Marker), Marthe Keller (dite Babou Christine), Jade Soentjens (Jade Marker), Margaux Soentjens (Margaux Marker), Francesco Italiano (Ami soirée), Tibo Vandenborre (Ami soirée), Catherine Salée (Amie soirée), Ariane Rousseau (Amie soirée). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.