A Entidade

O desenvolvimento de A Entidade diz mais sobre o espectador do que sobre a própria história. Em um mundo cada vez mais cínico e cético, a dificuldade em gerar tensão em um filme de horror — com exceção das inúmeras versões de Atividade Paranormal — permanece na credibilidade dos acontecimentos. Se nossas crenças já não mais estabelecem espíritos e demônios como os seres supremos do mal a imersão nas histórias contemporâneas caminham cada vez mais para os efeitos dessas forças malignas: a morte, simplesmente.

Que é o que ocorre nessa produção dirigida e escrita por Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose, O Dia em que a Terra Parou). Acompanhamos a crescente obsessão do escritor de casos não-resolvidos Ellison Oswalt (Ethan Hawke) quando ele e sua família se mudam para uma casa onde ocorreu o enforcamento de uma família inteira, com exceção de uma menina. Ao encontrar uma caixa com fitas gravadas de outros assassinatos com as mesmas características, logo Ellison estabelece um paralelo com serial killers, e a questão do sobrenatural fica meio que por debaixo dos panos, aos poucos tomando o contorno principal.

O problema central da direção de Derrickson é tentar encontrar o ponto médio em que o drama familiar que se configura pela obsessão do pai em voltar à fama que obteve 10 anos atrás e sua determinação em continuar suas investigações mesmo percebendo que sua sanidade — e a de sua família — pode estar sofrendo um risco irreversível. Sem tentar convencer o espectador que tudo o que vemos é real, há uma clara tentativa de fazer-nos acreditar que, devido ao nível de estresse de Ellison e o ambiente sugestionável em que ele próprio se inseriu, tudo aquilo pode ser apenas fruto de sua imaginação.

Infelizmente o nosso próprio nível de estresse não é elevado, e tudo o que sentimos através da ótima atuação de Ethan Hawke — que consegue nos convencer de sua própria degradação — não encontra paralelo na situação que está vivendo, onde muitos dos acontecimentos parecem simplesmente jogados convenientemente para nos dar a falsa impressão de que tudo não passa de uma brincadeira, mesmo mantendo acesa a chama da credulidade. Esse jogo desonesto quebra o nosso pacto de suspensão do real, e nunca é possível de fato acreditar junto com o escritor.

O que nos leva ao impreciso terceiro ato, que está determinado a não deixar pontas soltas, mas que mesmo assim, ou talvez por isso, não nos deixe espaço para nossa própria imaginação. Como um caso de suspense policial, mesmo com seu trágico fim, não há perguntas não respondidas, e o espectador médio sai da sala de cinema satisfeito de ter entendido tudo. Ou seja, o Cinema é rebaixado ao nível de um telejornal para atender ao seu consumidor, e com isso sabota o grande poder do terror em elevar o desconhecido e o seu medo ao grande protagonista desse gênero.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-01-20. A Entidade. Sinister (USA, 2012). Dirigido por Scott Derrickson. Escrito por Scott Derrickson, C. Robert Cargill. Com Ethan Hawke, Juliet Rylance, Fred Dalton Thompson, James Ransone, Michael Hall D'Addario, Clare Foley, Rob Riley, Tavis Smiley, Janet Zappala. imdb