A Era da Inocência

Jul 19, 2018

A Era da Inocência é conhecida em sua versão inglesa como Day of Darkness (e assim o é no original em francês). Isso tem um pouco a dizer sobre o teor do filme, que apesar de se passar em um ambiente depressivo (e opressivo), seu exagero sugere uma certa inocência em sua abordagem. Isso porque o diretor/escritor Denys Arcand está a todo vapor desde As Invasões Bárbaras, filme onde ele já atacava com todas as forças a ideia pré-concebida que o resto do mundo tem que o Canadá é um primeiro mundo ideal e desejável por todos, quando na verdade o sistema de saúde celebrado por todos é um pesadelo distópico digno de filmes como Brazil, THX 1138 ou até mesmo 1984.

Porém, diferente dessas ficções distópicas que colocam a ação em um futuro onde tudo deu errado, A Era da Inocência é sobre o aqui e agora canadense, o que o torna depressivo além da conta (por ser real). E isso nosso protagonista, o funcionário público Jean-Marc Leblanc (Marc Labrèche), precisa suportar, e precisa suportar junto com regras igualmente distópicas (mas que também soam reais) de não ser permitido fumar a um raio de uma milha do prédio do governo onde trabalha (que mais parece um estádio abandonado; note como a escalada governista espelha o aumento cada vez maior do funcionarismo público) ou até mesmo ser proibido usar a palavra “negro” com o seu amigo (em um dos melhores exemplos que o Ministério da Novilíngua poderia extrair do mundo como é hoje).

Este filme se passa no breve futuro ou no presente atual? Difícil saber a essa altura do socialismo em que vivemos. Leblanc está soando obviamente um pessimista do pior gênero. E ele não pega nem um pouco mais leve na vida pessoal de Marc Leblanc, onde possui uma esposa que é uma vendedora de imóveis que se aproveita das desgraças de seus clientes para realizar transações de sucesso (e que nunca – clichê – larga o celular), além de suas duas filhas que estão alheias à existência do pai (mais um clichê). Enquanto sua esposa se aproveita da desgraça alheia, Leblanc tem por função ouvir a desgraça alheia e responder com variações de “não tenho como lhe ajudar”, por pior que esteja a situação da pessoa.

Este é um filme de uma nota só, e o personagem de Marc Labrèche é o único que terá voz aqui. Todo o resto é meramente alegórico e está lá para servir ao protagonista de todas as formas, seja o desprezando, o limitando ou o subjulgando. E até satisfazer os desejos dessa pessoa em certo momento pode ser uma atitude nojenta. Porém, é preciso lembrar que ele está sob pressão, apesar dessa ser uma das falhas da atuação de Labrèche (ou da direção), que insiste em tornar seu personagem o mais passivo possível (diferente de Kevin Spacey em Beleza Americana).

E por falar em pressão, todo esse peso em cima desse senhor de meia-idade é extravasado em suas frequentes fantasias, onde se imagina na posição que qualquer homem de meia-idade (ou de idade inteira, ou na adolescência) já se imaginou: sendo uma celebridade e fazendo sexo fácil com qualquer mulher que se sinta atraída pelo que ele é em sua fantasia (mas que nunca nem olharia para ele na vida real). A frase recorrente dessas mulheres antes de tirarem a calcinha e deixarem elas a penetrar por trás é “me sinto indefesa diante de alguém com sucesso X” (sucesso X depende da fantasia atual). Essa repetição deixa claro que, apesar desse ser o sistema de escape deste homem, nem com isso ele consegue mais ter imaginação, onde eventualmente o veremos esgotado até nisso. Sua grande vantasia reside na personagem vivida pela linda Diane Kruger (conhecida no filme como Estrela), e ela parece ser a única ponta constante, onde podemos imaginar que ela é que é a única ponta de sanidade do nosso herói, e não sua mãe moribunda.

Aliás, a maior virtude do longa é saber sincronizar as três facetas de sua vida, onde quando uma começa a desmoronar as outras duas apenas seguem a tendência. O que nos leva à conclusão do filme, que é inocente demais para funcionar, e que nunca esteve ligado a qualquer traço do personagem até então. Isso soa um escapismo ingênuo de um sistema que saturou toda a essência humana. É igual às distopias já citadas, mas pior porque se torna estranhamente real, e ainda pior porque, sendo real, sua solução é irreal. Não assista se estiver tomando anti-depressivos.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-07-19. L'âge des ténèbres (ou Days of Darknes em inglês). Escrito e dirigido por Denys Arcand. Com Marc Labrèche, Diane Kruger, Sylvie Léonard.