A Estrada

A jornada do menino e seu pai por um mundo pós-apocalítico logo assume por repetição das situações que são obrigados a viver – fome, frio, perigo – um caráter muito mais moral do que uma simples história de sobrevivência. Só assim A Estrada consegue fazer sentido por completo, desde a mãe desconsolada até as pessoas que os dois encontram pelo caminho.

O caminho visto não é nada mais que uma série de infortúnios de um mundo à beira do colapso e sem esperança, algo que as lentes do fotógrafo evidenciam a todo momento pela ausência quase completa de cores quentes (com exceção do fogo noturno, um aspecto curioso, pois a única visão quente e agradável logo se torna símbolo do lado bom que todos temos dentro de nós, uma alusão clara à criação de uma religião).

De qualquer forma um olhar mais atento conseguiria entender o paralelo com a própria vida: pai e filho não possuem nome. A função do pai é sobretudo guiar o filho por este mundo novo, sem animais e com árvores caindo a cada novo terremoto. O mundo inóspito do filme não é apenas novo para o garoto, mas o único que ele conhece. Seu anseio por encontrar um “igual” – outro garoto – é compreensível e ao mesmo tempo tocante. Mais tocante, no entanto, é ver nascer de suas próprias observações o que é moralmente bom. Seu pai, incapaz de pensar em outra coisa que não ajudar o seu filho a sobreviver e se defender do mundo, aos poucos desenvolve uma paranoia corrigida apenas pelos sentidos puros e não corruptíveis do garoto. Uma parábola se forma, e entendemos que a estrada do título somos nós que criamos. Se iremos ajudar os que encontramos pelo caminho é aberto a interpretações.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-12-31 imdb