A Estranha Famíllia de Igby

Uma comédia estranhona que começa meio morna demais, parecendo justamente parecer apenas isso – estranhona –, mas que depois de sua introdução sem ritmo nos apresenta de verdade seus personagens, sua história, sua essência. Então se torna um palco para brilhantes atuações, além de um laboratório de pequenas experimentações na direção. Amparado sobre um roteiro denso, mas nem tanto, com diálogos que poderiam figurar facilmente em um livro ou peça, A Estranha Famíllia de Igby nos leva a concluir que muitos começos desastrosos podem enganar à primeira vista e entregar momentos que nunca esperaríamos de um gênero como esse.

Girando em torno da figura controversa de Igby (Kieran Culkin e seu irmão mais novo, Rory), um garoto problemático nascido e crescido em uma família problemática, vemos logo no início o assassinato de sua mãe por ele e seu irmão, Oliver (Ryan Phillippe). Depois o filme inteiro é um enorme flashback, onde vemos a agora viva e controladora mãe Mimi (Susan Sarandon em ótima performance) sendo a catalisadora, e talvez a causa maior, da destruição sistemática de uma família que se torna apenas os destroços de gente que carregam uma visão frequentemente cínica, imoral e utilitarista (em seu pior sentido) do mundo, e as que não o fazem se entregam à loucura como o meio mais fácil de sobreviver. Esse núcleo familiar, então, atrai pessoas igualmente problemáticas que irão circundar esse sistema solar disfuncional: seu padrinho businessman D.H. (Jeff Goldblum em instigante criação), que desejaria que as relações entre membros da família fossem formalizadas em contrato, sua jovem (claro) amante Rachel (a intensa Amanda Peet), cuja participação poderia ser acusada como conveniente para o destino de Igby, mas que aos poucos percebemos se tratar de uma visão ao vivo e em cores da destruição que estávamos testemunhando na família principal, e a mocinha, Sookie (a simpática Claire Danes), cujas visões igualmente cínicas preenchidas por um pragmatismo apático é justamente o que a torna a jovem mais fascinante do filme (ou a tornaria se tivesse mais tempo de tela).

O fato é que todos esses personagens juntos auxiliados pela direção (e pelo roteiro) de Burr Steers conseguem a proeza de levantar um filme sem muito propósito justamente por sua falta de propósito ser tão interessante. Não importa muito com quem Igby esteja interagindo, pois todas essas pessoas são fascinantes à sua maneira, conseguindo prender a atenção e ao mesmo tempo expandir as ideias acerca desse cinismo apaixonante que permeia toda a película e uma crítica não simplesmente ácida, mas bem construída em torno de pequenos arquétipos de filmes de Woody Allen cercados por algo mais do que apenas diálogos existencialistas: a vida em si. Além disso, a produção do filme mantém uma fotografia melancólica por qualquer cidade que passe, sempre pincelando com uma trilha sonora inspirada diretamente na psique de seus personagens.

Conseguindo a proeza de protagonizar a cena mais impactante, emocionante e simbólica do filme inteiro, Bill Pullman, o pai de Igby que cedeu à loucura controladora de sua esposa, encerra este elenco de luxo em um filme que merece cada um de seus atores. Essa cena consegue, aliás, unificar em uma frase toda a potência exposta de todo o filme. A conclusão? “Igby Goes Down”. E se levanta de novo?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-09-10 imdb