A Fantástica Fábrica de Chocolate

Esse filme de 1971 é o original daquele remake feito por Tim Burton alguns anos atrás. Curiosamente, ele também não é original, mas baseado em um livro (o que bate de frente com a opinião de alguns cinéfilos que acreditam piamente que essa é a era que ninguém cria mais nada de novo). A história contada é praticamente idêntica, mas possui um fechamento mais coeso e coerente com sua estrutura, embora a relação pai/filho da versão que tem Johnny Depp seja interessante até certo ponto. Outra coisa que o remake difere é que ele não possui quase nenhum diálogo do original, o que faz toda a diferença, pois o original sim possui frases memoráveis que recheiam os significados implícitos do filme.

Algo particularmente admirável é o tempo que se gasta para apresentar os personagens – metade do filme! – conforme cada um deles vai encontrando uma das cinco barras de chocolate com o ingresso dourado para a visita à misteriosa fábrica de chocolates de Willy Wonka. O elenco de atores-mirim está afiadíssimo, caricato e muito sugestivo. Não é preciso dizer praticamente mais nada a respeito das atitudes das crianças, uma vez que elas falam por si mesmas (e é uma pena que em alguns momentos da segunda metade alguns diálogos sejam talvez desnecessariamente expositivos). Enquanto isso, Gene Wilder realiza um belo trabalho que une o mundo das crianças ao dos adultos quando despreocupadamente se livra dos pequenos pestinhas enquanto solta uma frase de efeito que não sabemos ao certo se foi proposital ou não.

A direção de Mel Stuart é daquelas que parece acontecer uma vez na vida, como quando o primeiro filme de Giuseppe Tornatore se transforma em Cinema Paradiso. Praticamente tudo funciona: as músicas, as transições, o suspense criado em cima do quinto bilhete, que é uma das boas coisas que sobreviveu ao tempo.

E por falar em sobreviver ao tempo, até os efeitos, embora óbvios, são bem mascarados na maior parte do tempo. Além disso, ver um cenário com “rio de chocolate” que sabemos que foi construído tem um peso que é inimaginável na nossa época do digital, por melhor que fique no computador. Da mesma forma, roupas que combinam com o aspecto caricato de seus personagens, mas que não são impecavelmente limpas (como no trabalho de Tim Burton) contribuem para o “pé no chão” do filme em meio a tanta fantasia.

Fantasia alegórica filosófica é A Fantástica Fábrica de Chocolates. Podemos assistir já adultos e ainda nos perguntar se esquecemos alguma outra grande questão que ficou escondida em uma frase reflexiva de Wonka. Afinal de contas, tanto na fantasia quanto na vida real, tudo que um homem deseja é ser completo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-12-26 imdb