A Febre do Rato

Aug 3, 2012

Imagens

Acredito que a maior virtude do filme de Cláudio Assis é conseguir, a despeito das cenas chocantes de cunho sexual, criar uma atmosfera tão natural para o desenvolvimento de seus personagens que é quase como se estivéssemos assistindo à própria vida real. Claro, em uma versão embalada no formato dos filmes revolucionários das décadas de 60 e 70 no Brasil, e que nunca viriam a público em sessões abertas. A vantagem de uma democracia é que podemos, hoje, entender a bandeira que esses filmes tentaram levantar no passado.

Para essa imersão foi vital a decisão de rodar a experiência em P&B e com uma granularidade que dá a impressão de ser um trabalho caseiro e amador (como se isso fosse possível com a competência do veterano Walter Carvalho dirigindo a fotografia). Essa impressão, contudo, não passa despercebido do cinéfilo atento, que vai poder concluir através dos inúmeros enquadramentos milimetricamente caculados, as brincadeiras significativas com a câmera alta e baixa – ao mostrar boa parte das cenas com seus personagens sob o ponto de vista do teto, para em momentos-chave os colocar acima do mundo – e, finalmente, com longas e sutis sequências, documentais e extremamente eficientes para mostrar a interação do grupo de amigos nos momentos compartilhados, que o filme pode ser tosco, mas é de um tosco lírico, poético, quase surreal.

As virtudes técnicas, porém, não conseguiriam atingir tamanha naturalidade se não fosse a completa entrega do elenco aos seus controversos personagens. Matheus Nachtergaele, ícone de filmes cômicos como O Auto da Compadecida, consegue se conter e criar um personagem dramático até ou por causa de sua extrema simplicidade e visão de vida, ainda mais comparado ao seu amigo poeta, Zizo, interpretado por Irandhir Santos de maneira solena, mas ao mesmo tempo entregando seu corpo e alma ao projeto. Em paralelo, Nanda Costa cria uma Eneira misteriosa e sensual à altura do protagonista.

De tomada em tomada, o espectador consegue se acostumar a tudo que passa, e entender não pelas palavras, mas pelos atos, o que poeta (e, por tabela, o filme), enfim, queria dizer.

Wanderley Caloni, 2012-08-03. A Febre do Rato. A Febre do Rato (Brazil, 2011). Dirigido por Cláudio Assis. Escrito por Hilton Lacerda. Com Irandhir Santos, Juliano Cazarré, Matheus Nachtergaele, Tânia Granussi, Maria Gladys, Ângela Leal, Conceição Camaroti, Mariana Nunes, Hugo Gila. IMDB.