A Febre do Rato

Acredito que a maior virtude do filme de Cláudio Assis é conseguir, a despeito das cenas chocantes de cunho sexual, criar uma atmosfera tão natural para o desenvolvimento de seus personagens que é quase como se estivéssemos assistindo à própria vida real. Claro, em uma versão embalada no formato dos filmes revolucionários das décadas de 60 e 70 no Brasil, e que nunca viriam a público em sessões abertas. A vantagem de uma democracia é que podemos, hoje, entender a bandeira que esses filmes tentaram levantar no passado.

Para essa imersão foi vital a decisão de rodar a experiência em P&B e com uma granularidade que dá a impressão de ser um trabalho caseiro e amador (como se isso fosse possível com a competência do veterano Walter Carvalho dirigindo a fotografia). Essa impressão, contudo, não passa despercebido do cinéfilo atento, que vai poder concluir através dos inúmeros enquadramentos milimetricamente caculados, as brincadeiras significativas com a câmera alta e baixa – ao mostrar boa parte das cenas com seus personagens sob o ponto de vista do teto, para em momentos-chave os colocar acima do mundo – e, finalmente, com longas e sutis sequências, documentais e extremamente eficientes para mostrar a interação do grupo de amigos nos momentos compartilhados, que o filme pode ser tosco, mas é de um tosco lírico, poético, quase surreal.

As virtudes técnicas, porém, não conseguiriam atingir tamanha naturalidade se não fosse a completa entrega do elenco aos seus controversos personagens. Matheus Nachtergaele, ícone de filmes cômicos como O Auto da Compadecida, consegue se conter e criar um personagem dramático até ou por causa de sua extrema simplicidade e visão de vida, ainda mais comparado ao seu amigo poeta, Zizo, interpretado por Irandhir Santos de maneira solena, mas ao mesmo tempo entregando seu corpo e alma ao projeto. Em paralelo, Nanda Costa cria uma Eneira misteriosa e sensual à altura do protagonista.

De tomada em tomada, o espectador consegue se acostumar a tudo que passa, e entender não pelas palavras, mas pelos atos, o que poeta (e, por tabela, o filme), enfim, queria dizer.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-08-03 imdb