A Forma da Água

Apr 20, 2018

Imagens

Você já assistiu esse filme. E mais de uma vez. Criatura estranha e incompreendida é vista como monstro, mas no fundo tem um bom coração. E se você tocar uma música a criatura pode até dançar. E no caso de A Forma da Água, esta fantasia aventuresca de Guillermo del Toro (Círculo de Fogo, O Labirinto do Fauno) assume estar atrás de prêmios como o Oscar, por ser fácil de digerir (fácil até dar sono, eu diria). A direção de arte é soberba e extremamente verde. A heroína vive em uma casa em cima de um cinema que ninguém vai e que insiste em passar clássicos bíblicos. Seu vizinho é gay e juntos eles se divertem vendo musicais em preto e branco pela TV. Ele faz desenhos de publicidade, um mercado que está sumindo por conta das fotografias. E ela é uma faxineira de um centro de pesquisa inacreditavelmente incompetente. Junte tudo isto em uma alegoria tão séria quanto robôs gigantes lutando contra monstros apocalípticos.

Michael Shannon faz aqui um dos personagens mais caricaturescos já inventado. Ele é o homem branco hétero obtuso dos anos 60 na visão da feminista justiceira social mais ferrenha. Imagine que ela assistiu Mad Men e pirou, jurando vingança no processo. O personagem de Shape tem um emprego decente, uma esposa e filhos no estilo sonho americano (a casa dele é a única coisa no filme com uma cor diferente: amarelo). Ele deseja um carro novo, um Cadillac, símbolo daquela era. E consegue. E adivinha o que irá acontecer com o carro de um vilão em um filme desses?

Já Sally Hawkins (As Aventuras de Paddington) é a primeira atriz a ficar completamente nua em um filme de sessão da tarde. E, digamos de passagem, está muito bem obrigado (e digo obrigado em nome de todos os marmanjos que levarão suas namoradas melosas para ver este filme, como um prêmio de consolação). Hawkins é uma mudinha que irá levar uma indicação pelo seu trabalho em cima de uma personagem vazia, enigmática como todos os outros no filme. Me diga uma cena em que você se lembra da expressão de Hawkins no filme que sintetize sua personagem e o que ela sofre. Ela sequer é a narradora. Ela não tem voz nem onisciente; em seu lugar temos um narrador de romance.

No fundo vamos percebendo que são todos estereótipos que representam exatamente o que eles deveriam representar. Personagens vão e vem apenas com sua função pré-definida. A esposa de Shannon aparece apenas para que o marido possa transar e se imaginar com a mudinha, quando em momento nenhum imaginávamos que ele tinha algum desejo por ela. Shannon não parece ser o ator indicado para este papel. Mas quem seria? Um homem arrojado com um cargo de liderança que deseja faxineiras nas horas vagas? É preciso lembrar também que Octavia Spencer está aqui para inserir cotas e as piadas de cunho racistas precisam de um alvo, não? Quando questionado por Shannon sobre irmãos, ela diz não ter nenhum, e ele estranha. “Geralmente para pessoas como vocês (negras) isso é incomum”. Comentários gratuitos e desvinculados da narrativa principal como esses (não há qualquer motivo dele ter perguntado sobre irmãos para ela) fazem parte de uma história maniqueísta que tenta jogar com a velha dicotomia bem contra o mal, onde o bem é uma monstruosidade criada em computador (com os movimentos de Doug Jones).

Conspirações de Guerra Fria, espécimes raras capturadas em florestas sul-americanas (apenas um exemplar, e querem usar no programa espacial; sounds legit), mudinhas cuja reviravolta já sabemos desde o primeiro momento que olhamos para seu pescoço, negras que preenchem cotas e são alvo de piadas racistas, brancos que preenchem cota e são alvos de ódio SJW. O pacote é vasto de personas, mas não há nenhum personagem tridimensional nesta história que é mais um conto romantizado sobre um amor “impossível” entre dois outcasts (o filme é recheado de mais alguns). Enfim, se você gosta de verde e nostalgia, talvez esse filme seja para você. Do contrário…

Wanderley Caloni, 2018-04-20. The Shape of Water. EUA, 2017. Escrito por Vanessa Taylor e Guillermo del Toro (a partir de sua história), dirigido por Guillermo del Toro. Com Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon e Richard Jenkins. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).