A Fortuna de Ned

Se eu fosse um crítico de prestígio lá pelos idos de 1998, seria o primeiro a defender o filme estreante do diretor/roteirista Kirk Jones, que depois dirigiu os mais famosos “Nanny McPhee, a Babá Encantada” e Estão Todos Bem. A Fortuna de Ned é um filme de baixa produção, com uma única trilha sonora e 55 atores que interpretam um pequeno vilarejo isolado na poética Irlanda.

O narrador inicial fala sobre a loteria, como todos esperam os números sorteados, e como isso muda a vida dos ganhadores. Em seguida vemos uma sequência que resume tanto o humor negro do filme, mas, principalmente, a moral de seus idealizadores: o velho Jackie (Ian Bannen) está sentado em sua poltrona conferindo pela TV os números sorteados naquele momento. Ele quer que sua mulher traga torta para a sala, portanto, faz a coisa mais compreensível: finge que está acertando os números para lher chamar a atenção. Conclusão: a torta chegou mais rápido na sala.

Iniciando de maneira meio torta a busca pelo verdadeiro ganhador, que sabe-se que é do mesmo vilarejo onde Jackie mora, ele e seu simpático amigo Michael (David Kelly) saem por aí bajulando qualquer novo suspeito, até realizarem uma festa com todos os habitantes do local e darem pela falta do Ned do título, que preferiu ficar em casa: morto, segurando seu bilhete premiado.

A tentativa de conseguir sacar a pequena fortuna dá fruto a pelo menos dois momentos icônicos: o discurso breve e intenso de Jackie durante um funeral, e a sequência de um acidente de carro que podemos chamar de licença poética para o humor negro britânico se revelar em todas as suas cores. Permeando uma direção quase televisiva, A Fortuna de Ned se beneficia por conseguir pegar uma história simples e alavancá-la até suas últimas consequências, e no meio do caminho permear a vida e a riqueza pessoal que a interação entre as pessoas proporciona.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-11-06 imdb