A Garota de Fogo

Esse é um filme que começa de um jeito, mas acaba terminando de um outro completamente diferente, mas com seu “objetivo” concluído. A primeira fala do filme é de um professor de matemática, que faz algumas elucubrações sobre possibilidades históricas no melhor sentido de “e se”. Termina dizendo que, uma coisa pelo menos é certa: dois e dois sempre serão quatro.

Ou seja, estamos diante de um filme que sabe o que quer. E ele se torna isso e potencialmente algo mais. Primo próximo do excelente “Match Point”, ele trabalha personagens funcionais que se juntam em um estilo semelhante a filmes como “Babel”, “21 Gramas” e “Crash”. E poderia ser comparado com este último em tema, como uma possível crítica política e social. No entanto, não estou certo de ele se preocupa muito com isso, comentando aqui e ali a situação da crise da Espanha e da educação, e o fato dos dois personagens principais, apesar de só se encontrarem no terceiro ato, serem professores. A diferença de raciocínio de ambos, aliás, reside em suas especializações. Um é de literatura; o outro, de matemática.

Mas voltando ao plot, ele começa ingênuo, sobre um pai e sua filha com leucemia. Ela, viciada em cultura japonesa, tem um livro de desejos em que consta 1) se transformar em quem ela quiser, 2) o vestido de uma celebridade oriental e 3) completar 13 anos. O pai, igualmente infantil, passa a tentar adquirir o vestido, com um preço bem proibitivo para um desempregado. Depois dessa explanação quase sem diálogos aprendemos a linguagem peculiar do filme e partimos inexplicavelmente para outros personagens: uma esposa submissa e problemática e seu marido controlador.

A Garota de Fogo é um filme fascinante por suas histórias, por como elas se ligam, mas também pela construção de sua narrativa, que parece solta, natural, mas inspira, quase que sem querer, ideias na cabeça do espectador. Há momentos bem fortes, mas nunca gratuitos. A falta de comunicação entre homem e mulher é o que gera a maioria dos abusos e das tragédias no filme, mas, para coroar o comentário político, o uso de um fim que atravessa qualquer meio, por mais imoral que isso seja, faz um eco quase perfeito no governo e no povo espanhol, que se esbaldou na riqueza aparente graças ao espólio de seus cidadãos, e que hoje paga um preço muito caro.

O preço é bem caro também para os personagens de A Garota…, seja para os “vilões” ou para os “mocinhos”, se fosse possível rotulá-los assim. Nem uma criança com leucemia pode ser considerada inocente, ou será poupada tão facilmente.

Esse é um universo onde os livros são medidos pelo peso, e não pelo seu conteúdo, e onde a carta magna do país pode ser usada tranquilamente como repositório de milhares de euros (já que ninguém há muito tempo a lê). Ainda assim, o filme esconde bem suas críticas, preferindo se focar nos personagens, e no que eles podem representar. O resultado é enigmático, mas fácil de acompanhar. Visceral, mas nunca gratuito. Ele reconhece um universo maior que ele mesmo para contar sua história, e o resultado final é que, como a série Breaking Bad, queremos saber mais ainda sobre o passado de seus personagens. Uma virtude e tanto para um filme.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-04-14. A Garota de Fogo. Magical Girl (Spain, 2014). Dirigido por Carlos Vermut. Escrito por Carlos Vermut. Com José Sacristán, Marina Andruix, Raimundo Reyes de los, Lucía Pollán, Luis Bermejo, Alberto Chaves, Julián Génisson, Roser Pujol, Toña Medina. imdb