A Garota Dinamarquesa

Imagine como seria ser um transexual na década de 30 na Europa. Já vimos em O Jogo da Imitação que ser homossexual não daria muito certo. Usando a mesma lógica…

Só que não. A Garota Dinamarquesa parece mostrar que, desde que inserido na parcela da sociedade de artistas da época, a única carência que uma pessoa dessas teria é de especialistas que entendessem o drama e a necessidade da troca de sexo para se relacionar sexualmente com outras pessoas. E, caso essa pessoas estivesse já casada, com o apoio de sua esposa/marido.

Dirigido por Tom Hooper e escrito por Lucinda Coxon baseado no romance de David Ebershoff, o filme mostra a (real) vida de Einar (Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo) como uma mulher aprisionada no corpo de um homem. Pintor e casado com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander, Ex-Machina), ambos tentam ter filhos, e no meio de um trabalho de Gerda ela pede para o marido vestir uma peça de roupa e servir de modelo para um quadro, e é aí onde somos convidados a participar de um fascinante processo de descoberta de Einar e um suporte sobrenatural de Gerda, que vê o desaparecimento gradual e irreversível do seu antigo marido.

A atuação de Eddie Redmayne, diferente do surpreendente Stephen Hawking em A Teoria de Tudo, é competente, mas dificilmente consegue extrair um pouco de personalidade desse personagem da vida real. Mesmo fim triste tem sua esposa. Como o núcleo do filme se baseia nesses dois, é pedido ao espectador que confie que este é um casal com uma série de atributos e por isso estão juntos. Porém, no decorrer da história, quase nada sabemos a respeito dessas pessoas para enriquecer nossa visão que temos dos dois. Portanto, a atuação de ambos é importante, mas não faz milagres. O roteiro fraco e convencional de Coxon não nos entrega quase nenhuma tensão, e se entrega, é seriamente comprometida pela direção de Hooper, que está mais interessado em quadros com cenários com elementos fundos (como uma rua cheia de infinitas casas amarelas) do que tentar descobrir de verdade quem foi Einar Wegener, ou melhor dizendo, Lili Elbe.

Para piorar, a inserção de personagens secundários como os interpretados por Ben Whishaw e Matthias Schoenaerts soa como propícia demais para delinear a história com floreios como um romance passageiro e, pior, um final feliz mais do que convencional.

O que não deixa de ser frustrante em um filme que fala sobre a troca de sexo do protagonista, uma das primeiras operações no mundo desse tipo.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-02-12. A Garota Dinamarquesa. The Danish Girl (UK, 2015). Dirigido por Tom Hooper. Escrito por David Ebershoff, Lucinda Coxon. Com Alicia Vikander, Eddie Redmayne, Tusse Silberg, Adrian Schiller, Amber Heard, Emerald Fennell, Henry Pettigrew, Claus Bue, Peter Krag. imdb