A Garota Ideal

Vendido como comédia, esse filme é sobre um rapaz com problemas para se socializar (Ryan Gosling) após a morte do pai e que resolve comprar uma boneca pela internet (você sabe, “aquela” boneca) e tratá-la como sua namorada na frente de seu irmão e esposa e para toda a cidadezinha onde moram. Nada é forçado, exceto a reação praticamente positiva de todos os habitantes da cidadela, que parecem gostar de um rapaz que parece ausente da vida em comunidade exceto pelas missas na igreja e as idas e vindas do trabalho.

Felizmente, o lado cômico apresentado pelo diretor Craig Gillespie dura apenas o bastante para que nos sintamos à vontade com aquela situação e vejamos com uma melhor perspectiva um estudo de personagem que vai além do interpretado por Gosling. Em muitos momentos, parece que o filme está dizendo para o espectador experimentar a ausência de uma atriz no papel da namorada de plástico e nos fazer pensar nas pessoas que fazem parte do nosso círculo de relacionamentos (próximos ou não) e qual a diferença entre dizer bom dia casualmente/repetidamente para alguém de carne e osso ou apenas uma ideia.

Aliás, o que mais contém nossos risos e apela para o caráter dramático da história é um clima e fotografia particularmente depressivos: usando poucas cores em ambientes quase sempre com chuva ou neve, o diretor de fotografia Adam Kimmel faz uma melancólica brincadeira com um clichê comum em romances: situar a história de amor quase sempre na primavera ou pelo menos com cenários mais quentes. Dessa forma ele aponta visualmente que há algum problema com o jovem, embora tudo pareça correr como um relacionamento normal.

Por fim, este filme não seria metade do que é sem um elenco curiosamente competente, mesmo que muitas vezes nem sabendo direito o que fazem com diálogos e situações que em nada aprofundam o tema. De qualquer forma, A Garota Ideal consegue deixar sua mensagem de maneira quase que completamente satisfatória.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-09-07 imdb