A Garota no Trem

Este é um drama que une três mulheres e suas relações com homens que viram seus bonecos (e vice-versa). A discussão gira em torno de ter ou não bebês e de ter ou não amantes. Acaba virando um thriller com aquela reviravolta que todos já conhecem, mas no meio do caminho acompanhamos as semi-divertidas aventuras de uma mulher sem destino, que insiste em pegar um trem mesmo sem ter aonde ir, devidamente alcoolizada e sem noção do que foi que aconteceu com sua vida.

Dirigido pelo correto Tate Taylor (Vidas Cruzadas), o roteiro de Erin Cressida Wilson baseado no romance de Paula Hawkins usa saltos temporais demais sem qualquer necessidade, exceto acompanharmos os lapsos de memória de sua protagonista. De repente o presente se torna passado, voltamos dois meses, um mês e “a última sexta-feira”. Há tantos saltos que não importa muito o que veio antes do quê, já que o principal no filme é entendermos que há duas narradoras em conflito, e mesmo com ambas ainda há cenas que nenhuma delas presenciou.

A criação da alcoólatra de Emily Blunt depende muito mais dela – e ela manda relativamente bem com seu olhar confuso – do que dos truques de seu diretor, já que Taylor se limita em focá-la com um zoom perturbador em cima de uma face permanentemente ruborizada, lembrando a face das duas outras personagens (mas estas loiras): a amante que virou esposa e sua babá em crise existencial. Apesar de focar nessas personagens femininas e elas não conseguirem se desvencilhar de seus estereótipos, pior ficam os três homens da história, que se resumem em durante a maior parte do tempo acompanhar a neurose das três, que giram em torno de ter ou não bebês. Algumas querem, outras não querem, e isso ocupa boa parte da história.

Apesar de iniciando com uma boa premissa – a vida que poderíamos ter se não fossem nossas escolhas passadas – o drama flui vagarosamente em torno de histórias comuns e nunca consegue uni-las de uma maneira menos clichê do que descobrirmos que a vida de Rachel estava diretamente conectada a de Megan, que por sua vez estava indiretamente ameaçada por Anna. Essas duas últimas mulheres passeiam com seus corpos perfeitos enquanto Rachel cambaleia de um canto a outro. Ninguém acredita em uma mulher alcoolizada (se bem que… nem em um homem, né?), mas pior é ouvirmos as obviedades de uma investigadora nada sutil em suas conclusões.

E por falar em sutileza, nem o thriller consegue mascarar sua grande reviravolta, já que a todo momento (sem spoilers) ele tenta colocar um véu sobre o óbvio ululante, algo desnecessário de dizer. A obviedade existe até mesmo na trilha sonora e na fotografia, ambas tristes e cinzentas, que lembram muito como os relacionamentos são tratados hoje em dia. O diretor até utiliza a velha tomada das duas saídas de um túnel para enquadrar seus personagens do outro lado e sugerir algo como “a resposta está do outro lado”.

Curiosamente, enquanto a história deveria ser tipicamente feminina, com espírito feminino, o clichê dos thrillers é mais forte, causando a objetificação de mulheres cujos dramas são superficiais e mal-resolvidos justamente por conta de suas carências em torno de seus poucos homens disputados a tapas (uma cidade como Nova Iorque deveria ter mais, não?). E como brinde temos cenas de semi-nudez espalhadas pelo longa como “prova” da beleza dessas mulheres.

A Garota do Trem, portanto, se transforma paulatinamente em um thriller como outro qualquer, semi-protagonizado por mulheres e sem qualquer outro atrativo em sua história. Ainda assim, entretém moderadamente, criando sua atmosfera caótica ao soar confuso de forma proposital, com lapsos temporais que lembram os de um alcoólatra. E a única metáfora que resta com o trem do título é que todo o seu caminho já é conhecido: é só olhar para onde vão os trilhos.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2017-01-23 imdb