A Garota no Trem

2017/01/23

Este é um drama que une três mulheres e suas relações com homens que viram seus bonecos (e vice-versa). A discussão gira em torno de ter ou não bebês e de ter ou não amantes. Acaba virando um thriller com aquela reviravolta que todos já conhecem, mas no meio do caminho acompanhamos as semi-divertidas aventuras de uma mulher sem destino, que insiste em pegar um trem mesmo sem ter aonde ir, devidamente alcoolizada e sem noção do que foi que aconteceu com sua vida.

Dirigido pelo correto Tate Taylor (Vidas Cruzadas), o roteiro de Erin Cressida Wilson baseado no romance de Paula Hawkins usa saltos temporais demais sem qualquer necessidade, exceto acompanharmos os lapsos de memória de sua protagonista. De repente o presente se torna passado, voltamos dois meses, um mês e “a última sexta-feira”. Há tantos saltos que não importa muito o que veio antes do quê, já que o principal no filme é entendermos que há duas narradoras em conflito, e mesmo com ambas ainda há cenas que nenhuma delas presenciou.

A criação da alcoólatra de Emily Blunt depende muito mais dela – e ela manda relativamente bem com seu olhar confuso – do que dos truques de seu diretor, já que Taylor se limita em focá-la com um zoom perturbador em cima de uma face permanentemente ruborizada, lembrando a face das duas outras personagens (mas estas loiras): a amante que virou esposa e sua babá em crise existencial. Apesar de focar nessas personagens femininas e elas não conseguirem se desvencilhar de seus estereótipos, pior ficam os três homens da história, que se resumem em durante a maior parte do tempo acompanhar a neurose das três, que giram em torno de ter ou não bebês. Algumas querem, outras não querem, e isso ocupa boa parte da história.

Apesar de iniciando com uma boa premissa – a vida que poderíamos ter se não fossem nossas escolhas passadas – o drama flui vagarosamente em torno de histórias comuns e nunca consegue uni-las de uma maneira menos clichê do que descobrirmos que a vida de Rachel estava diretamente conectada a de Megan, que por sua vez estava indiretamente ameaçada por Anna. Essas duas últimas mulheres passeiam com seus corpos perfeitos enquanto Rachel cambaleia de um canto a outro. Ninguém acredita em uma mulher alcoolizada (se bem que… nem em um homem, né?), mas pior é ouvirmos as obviedades de uma investigadora nada sutil em suas conclusões.

E por falar em sutileza, nem o thriller consegue mascarar sua grande reviravolta, já que a todo momento (sem spoilers) ele tenta colocar um véu sobre o óbvio ululante, algo desnecessário de dizer. A obviedade existe até mesmo na trilha sonora e na fotografia, ambas tristes e cinzentas, que lembram muito como os relacionamentos são tratados hoje em dia. O diretor até utiliza a velha tomada das duas saídas de um túnel para enquadrar seus personagens do outro lado e sugerir algo como “a resposta está do outro lado”.

Curiosamente, enquanto a história deveria ser tipicamente feminina, com espírito feminino, o clichê dos thrillers é mais forte, causando a objetificação de mulheres cujos dramas são superficiais e mal-resolvidos justamente por conta de suas carências em torno de seus poucos homens disputados a tapas (uma cidade como Nova Iorque deveria ter mais, não?). E como brinde temos cenas de semi-nudez espalhadas pelo longa como “prova” da beleza dessas mulheres.

A Garota do Trem, portanto, se transforma paulatinamente em um thriller como outro qualquer, semi-protagonizado por mulheres e sem qualquer outro atrativo em sua história. Ainda assim, entretém moderadamente, criando sua atmosfera caótica ao soar confuso de forma proposital, com lapsos temporais que lembram os de um alcoólatra. E a única metáfora que resta com o trem do título é que todo o seu caminho já é conhecido: é só olhar para onde vão os trilhos.

★★★☆☆ Título original: The Girl on the Train. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Tate Taylor. Roteiro: Erin Cressida Wilson. Paula Hawkins. Elenco: Emily Blunt (Rachel). Haley Bennett (Megan). Rebecca Ferguson (Anna). Justin Theroux (Tom). Luke Evans (Scott). Edgar Ramírez (Dr. Kamal Abdic). Laura Prepon (Cathy). Allison Janney (Detective Riley). Darren Goldstein (Man in the Suit). Edição: Andrew Buckland. Michael McCusker. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Trilha Sonora: Danny Elfman. Duração: 112. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Drama. Tags: popcorntime

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