A Grande Aposta

Nov 26, 2016

Imagens

The Big Short encara a crise de 2008 do ponto de vista dos investidores que viram a falha sistêmica na economia americana e, contra tudo e contra todos, resolveram apostar. Essa descrição está perfeitamente acurada, quase uma sinopse, mas não consegue sequer arranhar a superfície de um filme que possui em sua estrutura não apenas o drama pessoal de cada uma dessas pessoas e não apenas a descrição simples e bem-humorada do economês necessário para entendê-lo, mas também a angustiante visão global do trabalho de Adam McKay, que ultrapassa o limite de um ótimo filme e passa a realizar uma das melhores e mais completas e ácidas críticas ao capitalismo de Estado.

O que mais impressiona é a quantidade e a qualidade do ótimo elenco, sejam conhecidos ou não. Necessário para o projeto, temos entre os cabeças de toda a operação, os personagens da vida real absolutamente geniais que descobriram a falha na Matrix antes dela explodir, atores de cara fácil construindo egos indestrutíveis: Christian Bale, Ryan Gosling e Brad Pitt. Sem contar Steve Carell, que consegue utilizar todos os seus pontos cômicos de atuação em um personagem absurdamente dramático.

A historia gira em torno de todos eles. Sim. E não se torna um filme confuso. Bem, talvez um pouco. Mas não por causa do excesso de personagens, algo que o filme tira de letra, mas pelo excesso de complexidade inerente ao sistema bancário americano, sistema esse aliás que se tornou tão complexo que enganou a todos responsáveis e irresponsáveis por ele. Nisso o filme acerta precisamente: ele deixa o espectador incerto se entendeu todas as criações exóticas de investimentos e como isso se atrelou ao sistema hipotecário americano para daí causar o efeito dominó da crise, mas exatamente por isso torna simples de entender como é impossível que existam tantas pessoas competentes no mundo dos bancos que consiga lidar com esse nível de complexidade e saber o que está fazendo.

No entanto, o roteiro de Charles Randolph e Adam McKay auxilia o espectador tanto de uma maneira didática quanto orgânica e até bem-humorada. Ele convida de vez em quando celebridades como Margot Robbie em sua banheira ou Selena Gomez em um cassino junto do pai da economia comportamental, Richard Thaler, para explicar bichos exóticos como CDOs sintéticos usando como analogia um jogo de 21 (Black Jack). Ele usa um pai de família alugando uma casa em que o dono não paga a hipoteca para exemplificar as pessoas atingidas pela crise. E por final – o meu favorito – ele constrói uma sequência onde a equipe do personagem de Steve Carell entrevista uma dupla de corretores que se gabam de vender casas para qualquer um e terminam em uma boate de strip, onde o personagem de Carell conhece uma dançarina – e tenta mantê-la quieta enquanto faz perguntas – e descobre que ela possui cinco casas e um apartamento hipotecado. E é aí que o filme comprova conseguir falar com diferentes tipos de público para explicar por que o mercado está ligeiramente fora de controle.

Baseado em personagens reais, o roteiro caminha através de camadas, conseguindo com sucesso abri-las e fechá-las. Seu início é o guru dos investimentos Michael Burry, interpretado por Christian Bale com a intensidade que merece. Burry é desses caras que não se acanha de dizer a verdade custe o que custar, e de investir no caminho que tem a convicção de estar certo. E depois de ler milhares de relatórios do mercado imobiliário este se convence que uma bolha vem aí. E aposta praticamente toda sua empresa nisso, a despeito da revolta de seus sócios e a insegurança de seus funcionários.

Sua decisão acaba o levando a entrar em contato com a Goldman Sachs para criar um novo tipo de papel para investir: um seguro contra o mercado imobiliário americano. A fé das pessoas no sistema era tão forte que sequer havia alguém disposto a colocar dinheiro contra essa correnteza. A forma com que o filme descreve a facilidade com que o dinheiro desses apostadores é recebida demonstra toda a arrogância já acumulada em décadas de crescimento inabalável do crédito imobiliário e de seu mercado.

Sendo o ponto de início, Burry chama a atenção de diferentes atores com diferentes interesses no mercado. O mais impressionante de tudo é que muitas coincidências ocorrem nessa história. E o filme faz questão de fazer com que os personagens quebrem a quarta parede, olhem para o espectador, e expliquem que isso faz ou não faz parte da versão real dos fatos. De certa forma, isso aproxima aquelas pessoas estranhas de nós, e o fato de dois colegas do fundo de Mark Baum (Carell) sempre conversarem a respeito de restaurantes é o tipo de detalhe que humaniza a figura fria de especuladores financeiros.

Ainda com todos esses cuidados para tornar o tema palatável, tudo iria ruína abaixo se não fosse pelo trabalho impressionante do editor Hank Corwin, que consegue migrar harmoniosamente entre todas as histórias paralelas que envolvem essas pessoas lutando para fazer valer sua visão da realidade (e apostar dinheiro nisso). O ritmo de cada uma das histórias é peculiar, mas de alguma maneira conseguimos acompanhar todas, e todas com atenção, porque impressionantemente não há histórias ou personagens fracos neste filme.

Aproveitando o tema musical de Burry, que adora ler relatórios financeiros constantemente ouvindo rock pesado, somos levados com a história e com o embalo de diferentes músicas clássicas do rock que tornam a experiência dinâmica mesmo que estejamos apenas acompanhando pessoas debatendo ideias, teorias e movimentando centenas de milhões de um lugar para outro. Nesse sentido, A Grande Aposta consegue se aproximar do muito mais divertido O Lobo de Wall Street, mas faz isso mesmo continuando seu tema muito mais sério e ambicioso que uma simples (embora excelente) biografia.

E, por falar em O Lobo de Wall Street, não podemos dizer que o diretor Adam McKay conduziu o filme totalmente livre de alucinógenos. Seu filme exala uma contemplação exaltada e animada a respeito não apenas de detalhes sórdidos do sistema bancário estado-unidense, mas da própria economia americana e seus princípios morais. No entanto, conseguindo conduzir tanto momentos hilariantes quanto sóbrios, em um arco que em uma crescente exige o máximo de atenção do espectador, mas sempre entregando em suas expectativas desfechos dramáticos satisfatórios (embora angustiantes e, de certa forma, depressivos), McKay parece manter o controle absoluto de seu filme embora o deixe se soltar, já que conta com um elenco e um roteiro que praticamente parecem brilhar sozinhos.

The Big Short é um dos melhores exemplos de como filmes sobre finanças e economia não precisam ser necessariamente documentais e/ou chatos. Claro que, no caso de uma crise complexa como essa, nem todo espectador irá se sentir antenado ao que está acontecendo exatamente com a realidade enquanto nossos heróis tentam em vão restituir a sanidade no sistema econômico americano e mundial. Mesmo assim, eu diria que vale a pena arriscar. Porque, se perder, o prejuízo será pouco mais que duas horas. E, se ganhar, será uma aula valiosíssima como nem tudo que reluz é ouro e tudo que as pessoas dão por satisfeito precisa muitas vezes de uma segunda olhada.

Wanderley Caloni, 2016-11-26. A Grande Aposta. The Big Short (USA, 2015). Dirigido por Adam McKay. Escrito por Charles Randolph, Adam McKay, Michael Lewis. Com Ryan Gosling (Jared Vennett), Rudy Eisenzopf (Lewis Ranieri), Casey Groves (Fund Manager), Charlie Talbert (Lewis Bond Trader), Harold Gervais (Lewis Bond Trader), Maria Frangos (Exotic Dancer), Christian Bale (Michael Burry), Hunter Burke (Analyst), Bernard Hocke (Coach). IMDB.