A Guerra dos Botões

Wanderley Caloni, January 25, 2019

A Guerra dos Botões é um filme magnífico se você analisar apenas os seus melhores momentos: lúdicos, épicos, vivos! Porém, ao tentar juntá-los, Yann Samuell exagera no caos e transforma essa experiência como deve ser na cabeça de uma criança: há alguns flashes na memória inesquecíveis, mas é impossível se lembrar de todo o contexto.

Contando a história do ponto de vista das crianças de duas vila vizinhas em eterno conflito, A Guerra dos Botões é um romance de Louis Pergaud que está sendo adaptado pela terceira vez no cinema. Houve uma versão francesa em 1962 e uma internacional em 1994 (baseada na primeira). Yann pegou a fonte original e fez uma adaptação inspiradíssima, onde ele reinterpreta nossa percepção de guerra, sociedade, pátria e todas as coisas de adulto sob o prisma dos olhos das crianças. Todos entram na brincadeira.

Para fazer isso funcionar ele usa todos atores não-profissionais, escolhe os de personalidade forte para que mantenham seu papel durante todo o filme. Um trabalho hercúleo é feito para conseguir manter o espírito da brincadeira do começo ao fim, e o resultado pode-se ver na tela: a pureza da juventude, onde as brincadeiras são levadas mais a sério do que quando nos tornamos adultos cínicos.

Há uma ordem de líderes entre as crianças do vilarejo que acompanhamos, onde cada líder escolhe uma palavra para gerar uma senha gigantesca que nos mostra que essa é uma tradição de várias gerações de crianças. Essa é uma sacada genial porque nos faz lembrar da monarquia e todos os sobrenomes dos reis e imperadores sendo aglutinados em um nome gigantesco, mas ao mesmo tempo faz sentido dentro da ótica daqueles meninos.

Há uma menina no banco, e ela é a mais enérgica e sagaz do grupo, se tornando braço direito de Lebrac, o líder. Lebrac representa o monarca que terá que decidir a sucessão, pois está mudando de vida. Entre os deveres da uma família que perdeu o pai com duas irmãs e a mãe para sustentar, e os deveres do lar e dos trabalhos que arruma, ele ainda precisa conseguir manter a coesão do bando. Lebrac está sob eterna pressão, e isso não é devidamente explorado pelos olhos de Samuell, fascinado pela possibilidade de criar um épico infantil e que se esquece que épicos são forjados pelos heróis que acompanhamos.

A sequência dos meninos todos nus correndo em uma plantação de trigo é o que resume toda a obra, mas não deveria ser. Há muitos outros momentos que poderiam se tornar também icônicos sob a curiosa fotografia de Julien Hirsch, que aplica um filtro mais adulto (mais escuro) para uma história de crianças, apontando não apenas a época como o clima em que as crianças enxergam os acontecimentos. A direção de arte é uma atração à parte, e mesmo a pequena vila possui vários atrativos para observarmos. É fácil entrar no clima dos anos 50 da França em guerra quando as vestimentas das crianças (e dos adultos) é surrada e não há mais nada senão casas de pedra e lama pra todo lado. Isso também explica que as próprias crianças vivam no clima de guerra e essa seja a brincadeira principal.

Porém, falta uma alma coesa no projeto de Samuell. Há muitos saltos entre os acontecimentos que lembram mais uma coletânea de momentos, e não uma história em que um evento puxa o outro. É como se o filme fosse apenas puxando o que o interessa de um diário de bordo que foi resgatado do passado, mas ninguém se interessou em narrar esses feitos partindo de algo que não fosse a passagem para a fase adulta de Lebrac, e nem isso é vital para metade do filme.

Bom, mas o importante para o espectador é que ele terá, sim, momentos brilhantes e lúdicos de crianças (e até adultos) levando a sério a brincadeira da guerra, e o que nos faz pensar em alguns momentos como a guerra dos adultos é apenas uma versão mais séria da mesma infantilidade. Seria a pátria consequência do mesmo mal?

Imagens e créditos no IMDB.
A Guerra dos Botões ● La guerre des boutons. França, 2011. Escrito por Yann Samuell baseado no romance de Louis Pergaud. Com Vincent Bres como William Lebrac, Salomé Lemire como Lanterna, Théo Bertrand como Azteca, Eric Elmosnino como Professor Merlin, Mathilde Seigner como a mãe de Lebrac, Alain Chabat como Professor Labru, Fred Testot como Padre Simão e Tristan Vichard como o pequeno Tigibus. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-01-25. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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