A Hora Mais Escura

Por tratar de eventos que ocorreram na vida real durante a caçada a Bin Laden, A Hora Mais Escura apresenta seus fatos de uma forma semidocumental e corre o risco de ser mal visto ao tratar a tortura um meio justificável e o assassinato de seres humanos um evento impessoal. No primeiro caso (tortura) podemos dizer que as pessoas deste século tendem a encarar o evento com mais compaixão (até pelo histórico de parentes e conhecidos que vivenciaram isso de perto). Já no segundo caso (assassinato), por envolver a morte do terrorista mais odiado de todo o mundo civilizado os sentimentos não caminham tão bem pelo estômago das pessoas que viram o horror de perto e ao vivo.

Esses sentimentos são trabalhados por Kathryn Bigelow no decorrer de um processo que inicia com os ataques dos aviões ao World Trade Center, um acontecimento que apenas ouvimos na tela escura pelas vozes das pessoas envolvidas, o que gera um misto de claustrofobia, medo, lembrança e respeito pelas mais de 3000 mortes. Logo depois somos levados a uma sala escura onde um dos membros da al-Qaeda é torturado para revelar o nome das pessoas com que mantinha contato. É quando vemos pela primeira vez os olhos lindos de Maya (Jessica Chastain), uma agente da CIA transferida para esse caso.

Acompanhamos a transição da agente, ainda assustada pelos métodos usados pelo colega para fazer seu preso falar, e quando passa a liderar os interrogatórios, entregue 100% ao trabalho de encontrar uma pessoa que tenha ligação direta com o terrorista. Os acontecimentos pulam rapidamente a quase uma década de esforços de uma equipe que vai aos poucos perdendo o apoio da Casa Branca conforme outros ataques acabam atraindo a atenção da mídia. A insistência de Maya em localizar seu alvo não possui a insanidade dos heróis de ação, mas a ponderação e o sangue frio de uma pessoa determinada e que infelizmente não sabemos o passado, apenas que começou muito cedo na carreira.

Por fim, quando Kathryn Bigelow mostra a que veio e relata de maneira exemplar a missão que dá nome ao título original, se aproveita da trilha de Alexandre Desplat para ressaltar tanto a grandiosidade do evento quando esse misto de sentimentos que rodeia o desejo agora já frio e distante da vingança. Aliás, a música do filme é o unico elemento que diz algo sobre o humor do filme que gira em torno de diálogos longos e burocráticos e que ilustram bem o ritmo de trabalho no decorrer de tantos anos.

Encontrando a cadência exata entre os breves momentos que vemos Maya, os soldados e sua visão noturna piorada por movimentos bruscos constantes, a montagem transforma a contemporaneidade dos eventos em uma experiência única, servindo de metalinguagem da vida real para o que está acontecendo nesse momento. As feridas abertas do povo americano ainda permeiam a cena final com o potencial mais dramático de todos: a frágil humanidade de nossas escolhas.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-02-21. A Hora Mais Escura. Zero Dark Thirty (USA, 2012). Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Com Jason Clarke, Reda Kateb, Jessica Chastain, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Jeremy Strong, J.J. Kandel, Wahab Sheikh. imdb