A Ilha dos Mortos

Wanderley Caloni, December 20, 2010

Em uma introdução ultra-rápida em off, temos o cenário e o resumo do que irá acontecer durante o filme inteiro, em uma síntese cuja forma também será usada por todo a história, mostrando a segurança de Romero em estabelecer as ligações primordiais e avançar ideologicamente em pontos mais aprofundados do tema “mortos-vivos”.

Notamos que a voz em off, do protagonista, é onisciente, pois ele narra sobre o patriarca de uma família que mora numa ilha governada e rivalizada por duas famílias tradicionais, mas faz isso antes mesmo de conhecer o sujeito. Por outro lado, nessa primeira “invasão” à ilha, vemos esse patriarca com outros olhos, como uma pessoa enlouquecida, coisa que esqueceremos depois, quando o vermos mais pra frente no filme.

A trilha sonora, típica de terror e filmes fantásticos, segue precisamente as cenas de espanto, assim como os closes, zooms e outros artifícios forjados para dar a impressão certeira de um representante digno da categoria trash; e até poderia ser, se o pano de fundo e a narrativa não fossem extremamente bem feitas para vermos que tudo aquilo já faz parte daquele mundo criado por Romero, um gigante nessas alegorias.

Essas duas famílias rivalizam exatamente o que fazer com os mortos-vivos. A primeira família acha que devemos matar a todos, e matam novamente os mortos. A segunda acredita que devemos manter os mortos presos até acharmos uma solução para o dilema deles quererem comer os humanos vivos. Esses lados convivem na ilha, e tudo é mostrado com um certo tom épico e bíblico no começo, como se existisse uma filosofia profunda e bem articulada de ambos os lados.

Por outro lado, a moral é logo deflagrada como algo ultrapassado. Com uma lésbica se masturbando na frente de homens de um exército desertor, e outras cenas ainda mais chocantes e hilárias, somos enviados a um universo de humanos, sim, mas que se comportam de maneira um pouco menos equilibrada.

“Tempos nojentos geram pessoas nojentas”. Essa frase, dita pelo componente mais jovem do grupo, parece sintetizar bem sobre o que o filme tenta falar. O ser humano aqui não é valorizado; nem os vivos, e nem depois de mortos. No mundo de Romero, apenas o ambiente dá conta de criar uma pseudo-moral que será usada pelos habitantes daquele mundo medonho em que as pessoas dão tiros umas nas outras como uma coisa normal, e onde, apesar de não parecer valer mais nada, o dinheiro ainda é cobiçado como um grande tesouro.

Existem cenas absurdas que fazem rir ao mesmo tempo que participamos de cenas nojentas. Quando o protagonista joga uma granada em uma casa, por exemplo, vemos o recorte exato do que ele quis nos mostrar sendo aberto pela “granada”, de forma que o ambiente se transforma, mais uma vez, a la trash, para que ele tenha também uma função: tornar aquela realidade absurda o suficiente para não levarmos tão a sério, mas verossímil ainda para podermos nos concentrar na linha de raciocínio que as pessoas ainda vivas no filme tentam usar para viver.

Outra cena absurda: entregando a dinamite na mão de um morto-vivo, e voltando a fechar a porta, quando na próxima cena vemos o morto analisando o que acabou de ganhar, cujo pavio é consumido e no timing exato tudo explode e os corpos voam.

Aliás, o timing das cenas é completamente dominado, uma vez que cenário e mortos-vivos contribuem ativamente para a “montagem” dos quadros, em uma sucessão de tiros e ataques que são tão bem orquestrados que divertem pelo simples fato de acontecerem, e não nos sentimos enojados ou entediados, porque nos interessamos pela inventividade e criatividade das cenas (além delas serem muito engraçadas).

O filme, assim, se torna extremamente divertido e cativante, sem se tornar ruim (apesar de seguir a linha trash). Mas isso só é possível graças à nossa inserção nesse contexto fantasioso desde o começo, como é explicado na introdução e fortalecido nas cenas posteriores.

Os mortos, por exemplo, estão sempre disponível para aparecerem como alvos das armas mais bizarras e criativas já criadas para matar um morto (como uma salsicha em um garfo).

Em outros momentos vemos a tensão de uma cena crescer exponencialmente, como quando o garoto vai buscar água para acordar o capitão que acabou de desmaiar, por ter sido almejado no ombro.

Seriam as irmãs gêmeas um deus ex-machina? Provavelmente não, pois essa parte da descrição inicial pode muito bem ter sido propositadamente deixado de lado.

Os zumbis de Romero são sempre muito divertidos, previsíveis e orquestrados. Ele se sente sempre à vontade para fazer as cenas mais batidas, só que com um ar de sofisticação que dificilmente outros diretores conseguem, como, por exemplo, quando o patriarca usa uma morta-viva como escudo para se aproximar do inimigo.

Nas cenas finais temos mais exemplos dessa inventividade com uma chuva de maneiras diferentes e criativas de como os zumbis vão morrendo.

A moral mais uma vez é criticada e esmagada nas cenas finais, em que o inimigo não dá nem um segundo para o patriarca falar com a filha, o matando assim que ele dá as costas, ou com o próprio patriarca matando sua filha sem dó nem piedade, pelo simples prazer de provar que seria capaz dessa “proeza”, notando que ainda tinha uma bala em sua arma.

O final não poderia ser mais irônico, pois o mesmo patriarca que nos parecia enlouquecido no início e que, graças à publicidade na internet, pareceu-nos mais simpático no meio pro final, agora, depois de matar a filha, volta a ser o cara doentio que havíamos visto no início, e, nós sabendo que agora existe uma maneira de alimentar os zumbis sem que seja com carne humana torna os objetivos da família inimiga mais louváveis e até justificáveis, fazendo descaradamente com que troquemos de lado mais uma vez em prol da família inimiga. No fundo a conclusão, genial e imbatível, é que não importa o lado que estamos, pois sempre haverão lados que erguerão bandeiras, e mais pra frente suas causas são esquecidas, e tudo o que resta é “brigar pela bandeira”, em uma outra síntese alegórica perfeita sobre a guerra no Iraque.

Imagens e créditos no IMDB.
A Ilha dos Mortos ● A Ilha dos Mortos. Survival of the Dead (USA, 2009). Dirigido por George A. Romero. Escrito por George A. Romero. Com Alan Van Sprang, Joshua Peace, Hardee T. Lineham, Dru Viergever, Eric Woolfe, Shawn Roberts, Scott Wentworth, Amy Lalonde, Michelle Morgan. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-12-20. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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