Era Uma Vez em Nova York

A Imigrante é filmada como um épico, e apresenta, assim como Era Uma Vez Na América, um retrato depressivo e opressivo da imigração americana no começo do século 19. Além disso, não fornece muitos pontos de escape desse universo angustiante, se tornando portanto uma experiência pesada, ainda que bela e que figurada por grandes atores.

A história gira em torno do destino de Ewa Cybulska, uma polonesa fugida da guerra após a morte dos seus pais que, junto da irmã, tentam a sorte em um navio para Nova Iorque. Porém, mal chegaram e a irmã, adoecida, é colocada em quarentena na ilha de Ellis, conhecida historicamente pelos maus tratos aos imigrantes e que gerou diversas mortes e desesperança. Quando a permanência de Ewa na terra da liberdade também é colocada em xeque, surge a figura pouco simpática, ainda que educada, de Bruno Weiss, um homem de contatos e que coordena dançarinas em um teatro que vende bebidas e mulheres de maneira clandestina.

Dirigido e escrito por James Gray (auxiliado no roteiro por Ric Menello), o filme já começa a despontar seu cinismo no primeiro quadro, onde vemos à distância a Estátua da Liberdade, seguido de um ardiloso Joaquin Phoenix saindo de um porão. Como uma maneira de redenção, a última cena, o último quadro, é um primor pela beleza estética e semântica do momento, e com certeza figura entre as mais icônicas cenas do Cinema naquele ano.

Merecedor de prêmios também é a fotografia de Darius Khondji, que nos faz emergir em tons amarelados e escurecidos de um EUA que muitos gostariam de esquecer. Até o Central Park fica feio e sujo nesse filme.

Porém, a “feiura” do filme está mesmo no caráter de seus personagens. Outro merecedor de créditos, Joaquin Phoenix faz uma pessoa que consegue navegar nos diferentes níveis de corrupção policial e vende suas mulheres de maneira competente. Nada disso parece importar quando se apaixona por Ewa, quando de repente estamos vendo o declínio de um ser humano da pior espécie, mas que por algum motivo não conseguimos sentir ódio. Phoenix é dono de uma presença de espírito que torna odiá-lo extremamente difícil. E apesar de nunca dizê-lo, aos poucos entendemos seus motivos.

E ainda assim, é Marion Cotillard que mantém as atenções voltadas para ela. Sua Ewa vai se tornando cada vez mais complexa conforme as porta vão se fechando para ela. Sua cara de desespero e ingenuidade vai se fechando, e quando descobrimos a desgraça que lhe aconteceu no navio, tudo começa a fazer sentido.

A Imigrante não é um filme fácil. Com uma fotografia igualmente linda, é um anti-“Brooklin”, um outro filme sobre aquela época muito mais otimista e romântico. Aqui só há lágrimas de dor e desprezo pela humanidade.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-11-17 imdb