A Incrível História de Adaline

Sep 11, 2015

Imagens

A premissa por trás de “Adaline” é muito interessante, como toda ficção científica bem imaginada costuma ser. O filme, aliás, possui diversos pontos altos em sua história. Porém, o novelão romântico ao qual ele se entrega não deixa de incomodar durante todo o tempo, fazendo com que uma experiência fascinante vá aos poucos nos lembrando das velhas fórmulas de fazer romance com um drama genérico.

A história gira em torno da Adaline do título, que sofre um acidente de carro que faz com que ela não envelheça mais. Nascida nos anos 1900, a história de Adaline combina com todo o século XX, e vemos através de flashbacks diferentes momentos deste em que Adaline estava presente, o suficiente para dar a dimensão do que é viver um século e não envelhecer um dia.

Descoberta, porém, na era do Macartismo, Adaline foge e resolve adotar um cronograma em que ela muda de aparência e cidade de década em década, para nunca mais correr o risco de virar um experimento científico. Dessa forma, ela vive várias vidas, mas nenhuma longa o suficiente para que ela ganhe intimidade e se relacione com outras pessoas, exceto seus cachorros (e é tocante o momento em que presenciamos o fim de vida de um deles, pois ele representa uma série provavelmente grande de companheiros caninos na vida da “garota”).

Sem muita desenvoltura, a atuação de Blake Lively tem um ou outro detalhe curioso – como a forma contemplativa e lenta “para alguém de sua idade” ao observar a realidade à sua volta – mas nada que consiga imprimir um século de existência, exceto os detalhes curiosos e descartáveis inseridos pelo roteiro de J. Mills Goodloe, como o fato dela falar inúmeras línguas.

Porém, se por um lado a memória de Adaline permanece intocável por tanto tempo, em outros há a impressão de que os momentos de sua existência se misturam em uma cornucópia mágica e infinita de anos que parecem se repetir e nunca significar mais do que vagas lembranças. Sua filha é o único ponto constante, e mesmo assim ela pouco a visita. O sinal de que em breve ela não mais estará com ela acende seu alarme interno de que talvez seja a hora de confiar em mais uma pessoa.

E é assim que o filme dirigido por Lee Toland Krieger dá uma guinada interessante ao questionar a necessidade do ser humano de plantar raízes e evoluir em seus relacionamentos para justificar sua existência ou até mesmo descobri-la. Junto a isso ocorre um evento extraordinário demais para fazer sentido lógico, e é aí que o esoterismo parece flertar mais ainda com seu personagem.

Tendo a participação surpresa de um Harrison Ford cada vez melhor enquanto envelhece – uma curiosidade em um filme que fala sobre não envelhecer – A Incrível História de Adaline parecia bom e original demais para ser verdade em seu início, demonstrando aos poucos que não passa de mais um dramalhão feito para o público não ficar pensando ou refletindo demais, um pecado imperdoável se tratando de ficção científica, sendo que uma das maiores virtudes do gênero é justamente essa.

Wanderley Caloni, 2015-09-11. A Incrível História de Adaline. The Age of Adaline (USA, 2015). Dirigido por Lee Toland Krieger. Escrito por J. Mills Goodloe, Salvador Paskowitz, J. Mills Goodloe, J. Mills Goodloe, Salvador Paskowitz. Com Blake Lively, Michiel Huisman, Harrison Ford, Ellen Burstyn, Kathy Baker, Amanda Crew, Lynda Boyd, Hugh Ross, Richard Harmon. IMDB.