A Incrível História de Adaline

A premissa por trás de “Adaline” é muito interessante, como toda ficção científica bem imaginada costuma ser. O filme, aliás, possui diversos pontos altos em sua história. Porém, o novelão romântico ao qual ele se entrega não deixa de incomodar durante todo o tempo, fazendo com que uma experiência fascinante vá aos poucos nos lembrando das velhas fórmulas de fazer romance com um drama genérico.

A história gira em torno da Adaline do título, que sofre um acidente de carro que faz com que ela não envelheça mais. Nascida nos anos 1900, a história de Adaline combina com todo o século XX, e vemos através de flashbacks diferentes momentos deste em que Adaline estava presente, o suficiente para dar a dimensão do que é viver um século e não envelhecer um dia.

Descoberta, porém, na era do Macartismo, Adaline foge e resolve adotar um cronograma em que ela muda de aparência e cidade de década em década, para nunca mais correr o risco de virar um experimento científico. Dessa forma, ela vive várias vidas, mas nenhuma longa o suficiente para que ela ganhe intimidade e se relacione com outras pessoas, exceto seus cachorros (e é tocante o momento em que presenciamos o fim de vida de um deles, pois ele representa uma série provavelmente grande de companheiros caninos na vida da “garota”).

Sem muita desenvoltura, a atuação de Blake Lively tem um ou outro detalhe curioso – como a forma contemplativa e lenta “para alguém de sua idade” ao observar a realidade à sua volta – mas nada que consiga imprimir um século de existência, exceto os detalhes curiosos e descartáveis inseridos pelo roteiro de J. Mills Goodloe, como o fato dela falar inúmeras línguas.

Porém, se por um lado a memória de Adaline permanece intocável por tanto tempo, em outros há a impressão de que os momentos de sua existência se misturam em uma cornucópia mágica e infinita de anos que parecem se repetir e nunca significar mais do que vagas lembranças. Sua filha é o único ponto constante, e mesmo assim ela pouco a visita. O sinal de que em breve ela não mais estará com ela acende seu alarme interno de que talvez seja a hora de confiar em mais uma pessoa.

E é assim que o filme dirigido por Lee Toland Krieger dá uma guinada interessante ao questionar a necessidade do ser humano de plantar raízes e evoluir em seus relacionamentos para justificar sua existência ou até mesmo descobri-la. Junto a isso ocorre um evento extraordinário demais para fazer sentido lógico, e é aí que o esoterismo parece flertar mais ainda com seu personagem.

Tendo a participação surpresa de um Harrison Ford cada vez melhor enquanto envelhece – uma curiosidade em um filme que fala sobre não envelhecer – A Incrível História de Adaline parecia bom e original demais para ser verdade em seu início, demonstrando aos poucos que não passa de mais um dramalhão feito para o público não ficar pensando ou refletindo demais, um pecado imperdoável se tratando de ficção científica, sendo que uma das maiores virtudes do gênero é justamente essa.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-09-11 imdb