A Invenção de Hugo Cabret

2012/02/25

Hugo é o primeiro filme em 3D do mestre Scorsese (Os Bons Companheiros, Táxi Driver) e nesse caso – é preciso dizer – o uso da tecnologia é totalmente justificada. Abordando uma história que gira em torno do cinema e seus primórdios, a ideia de “separar” a criação de filmes antigos do próprio filme cria um exercício metalinguístico admirável e uma aventura extremamente emocionante. O uso da tecnologia, além de ser aplicada com competência, difere de filmes anteriores principalmente pela já velha questão do foco. Em Avatar, por exemplo, o primeiro grande exemplo de 3D “de verdade”, James Cameron ainda aplica o foco de maneira binária nos personagens, se esquecendo que estamos em um cenário com profundidade de campo variável. Já em Hugo o que ocorre é uma perda gradual de foco, com o fundo ficando aos poucos “embaçado”, ou seja, uma simulação de mais ou menos como nossos olhos funcionam em um ambiente como no mundo real. O uso de engrenagens e cenários internos com longos corredores consegue ajudar a nos ambientar nessa profundidade de campo facilmente, e embora esse recurso seja repetido meio à exaustão ele é importante para nos situar no universo do protagonista. Mesmo os cenários “externos”, ainda sofrendo a limitação da tecnologia em planos aéreos, pois faz com que os objetos pareçam maquetes, dentro do espírito fabuloso da narrativa encaixa-se perfeitamente.

Porém, mais do que um filme que homenageia o Cinema e usa o 3D como poucos, Hugo pretende contar uma história, e essa não funciona tão bem, apesar de ideias e momentos icônicos existirem salpicados durante todo o trajeto. Pra começar, Hugo não é o garoto carismático que o roteiro talvez precisasse de fato, e as provações pelos quais ele passa não o tornam um personagem mais dramático nem as passagens mais leves o tornam mais cômico. Tudo parece surgir como um ensaio para a história real, porque nada adquire peso até que se comece a falar do cineasta George Méliès, um dos pioneiros em fazer filmes e a criar efeitos visuais (não é à toa que ele se torna o grande homenageado do trabalho de Scorsese).

Além do mais, os conflitos principais da história não se sustentam, virando em vez disso meras distrações. O próprio inspetor que persegue Hugo pela estação ferroviária, o sempre eficiente Sasha Baron Cohen, vem em uma versão reduzida, limitada, e não consegue fazer rir como em seus personagens habituais. E se a interpretação de Asa Butterfield como Hugo soa apática e sem quaisquer atrativos, sua companheira Isabelle (Chloë Grace Moretz, de Kick-Ass) se sai infinitamente melhor, mas ainda assim o conceito de filme infantil parece perturbar a cabeça do diretor.

Por fim, mesmo com esses óbvios problemas de caráter burocrático para que o filme conte sua grande história, o fato é que, chegando lá, ele funciona impecavelmente bem, levando facilmente o espectador a esquecer que está em uma sala de projeção e a viajar pela história de um dos criadores da arte de contar histórias. Essas sim, deliciosamente fantasiosas.

★★★☆☆ Hugo. USA, 2011. Direction: Martin Scorsese. Script: John Logan. Brian Selznick. Cast: Ben Kingsley. Sacha Baron Cohen. Asa Butterfield. Chloë Grace Moretz. Ray Winstone. Emily Mortimer. Christopher Lee. Helen McCrory. Michael Stuhlbarg. Edition: Thelma Schoonmaker. Cinematography: Robert Richardson. Soundtrack: Howard Shore. Runtime: USA:126. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Adventure. Category: movies Tags: 3d revisita

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