A Invenção de Hugo Cabret

Hugo é o primeiro filme em 3D do mestre Scorsese (Os Bons Companheiros, Táxi Driver) e nesse caso – é preciso dizer – o uso da tecnologia é totalmente justificada. Abordando uma história que gira em torno do cinema e seus primórdios, a ideia de “separar” a criação de filmes antigos do próprio filme cria um exercício metalinguístico admirável e uma aventura extremamente emocionante. O uso da tecnologia, além de ser aplicada com competência, difere de filmes anteriores principalmente pela já velha questão do foco. Em Avatar, por exemplo, o primeiro grande exemplo de 3D “de verdade”, James Cameron ainda aplica o foco de maneira binária nos personagens, se esquecendo que estamos em um cenário com profundidade de campo variável. Já em Hugo o que ocorre é uma perda gradual de foco, com o fundo ficando aos poucos “embaçado”, ou seja, uma simulação de mais ou menos como nossos olhos funcionam em um ambiente como no mundo real. O uso de engrenagens e cenários internos com longos corredores consegue ajudar a nos ambientar nessa profundidade de campo facilmente, e embora esse recurso seja repetido meio à exaustão ele é importante para nos situar no universo do protagonista. Mesmo os cenários “externos”, ainda sofrendo a limitação da tecnologia em planos aéreos, pois faz com que os objetos pareçam maquetes, dentro do espírito fabuloso da narrativa encaixa-se perfeitamente.

Porém, mais do que um filme que homenageia o Cinema e usa o 3D como poucos, Hugo pretende contar uma história, e essa não funciona tão bem, apesar de ideias e momentos icônicos existirem salpicados durante todo o trajeto. Pra começar, Hugo não é o garoto carismático que o roteiro talvez precisasse de fato, e as provações pelos quais ele passa não o tornam um personagem mais dramático nem as passagens mais leves o tornam mais cômico. Tudo parece surgir como um ensaio para a história real, porque nada adquire peso até que se comece a falar do cineasta George Méliès, um dos pioneiros em fazer filmes e a criar efeitos visuais (não é à toa que ele se torna o grande homenageado do trabalho de Scorsese).

Além do mais, os conflitos principais da história não se sustentam, virando em vez disso meras distrações. O próprio inspetor que persegue Hugo pela estação ferroviária, o sempre eficiente Sasha Baron Cohen, vem em uma versão reduzida, limitada, e não consegue fazer rir como em seus personagens habituais. E se a interpretação de Asa Butterfield como Hugo soa apática e sem quaisquer atrativos, sua companheira Isabelle (Chloë Grace Moretz, de Kick-Ass) se sai infinitamente melhor, mas ainda assim o conceito de filme infantil parece perturbar a cabeça do diretor.

Por fim, mesmo com esses óbvios problemas de caráter burocrático para que o filme conte sua grande história, o fato é que, chegando lá, ele funciona impecavelmente bem, levando facilmente o espectador a esquecer que está em uma sala de projeção e a viajar pela história de um dos criadores da arte de contar histórias. Essas sim, deliciosamente fantasiosas.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2012-02-25. A Invenção de Hugo Cabret. Hugo (USA, 2011). Dirigido por Martin Scorsese. Escrito por John Logan, Brian Selznick. Com Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg. imdb