A Mansão Mágica

Ultimamente venho revelando uma queda por animações (e filmes em geral) em que o roteiro não se esquece que está contando uma história que, apesar de existir seguindo as regras de seu próprio universo, existem regras. E essas regras, quando violadas, enfraquecem qualquer trama, seja realista ou não. Quando falamos de animações, essas regras geralmente são bem flexíveis, mas mesmo assim o Deus Ex Machina aparece no terceiro ato vez sim, vez não.

No caso de A Mansão Mágica, como o próprio nome diz, mágica já está no pacote de regras desse universo que gira em torno de um mágico aposentado que tem por rotina cuidar de suas invenções, os animais que circundam sua mansão e os pacientes infantis de um hospital. Um dos novos hóspedes é um gato que foi esquecido durante a mudança de seus donos. Não bem-visto pelo coelho por invadir seu espaço e suas regalias, todos terão que provar sua lealdade a seu mestre quando seu filho, corretor de imóveis, ameaça se livrar da mansão e de todos que a habitam.

Os detalhes é o que constrói uma trama verossímil dentro da lógica da própria história. Os animais e invenções têm seus limites físicos para impedir que seu mestre seja expulso de seu próprio lar, mas um dos trunfos, por exemplo, é que o corretor de imóveis é alérgico a gatos. Usando um formato semelhante com Esqueceram de Mim, portanto, o perigo se aproxima aos poucos, e sabemos que ele inevitavelmente irá conseguir êxito.

Já a direção se mostra oportunista em um primeiro momento, quando tomadas de primeira pessoa invadem o filme claramente como chamadas à tecnologia 3D. Porém, logo isso se acomoda para movimentos mais elegantes em torno dos aposentos da mansão, e a orientação espacial quase não é caótica (embora um pouco de desorientação, proposital ou não, às vezes ajude em tornar as sequências mais tensas).

No entanto, mais que as virtudes da direção e do roteiro, a animação flerta com o amadorismo, mas consegue se sobressair em praticamente todos os detalhes que realmente importam. Como nossa identificação com o gato, que possui mais expressões interessantes do que o próprio Gato de Botas de Shrek, por exemplo. Isso vale para todos os personagens, incluindo uma simpática lâmpada que faz uma homenagem curiosa a um personagem da Disney que também está relacionado com invenções malucas.

O resultado, portanto, é uma produção inusitada que consegue superar todos os perigos que rondam as animações de menor renda. Uma evolução e tanto dos diretores que estiveram envolvidos em As Aventuras de Sammy e Os Cosmonautas no Mundo da Lua. Nunca subestime a capacidade das pessoas de se auto-aprimorar.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-12-30. A Mansão Mágica. The House of Magic (Belgium, 2013). Dirigido por Jeremy Degruson, Ben Stassen. Escrito por Ben Stassen, James Flynn, Domonic Paris, Ben Stassen. Com Cinda Adams, George Babbit, Murray Blue, Kathleen Browers, Joey Camen, Grant George, Shanelle Gray, Nina Grillo, Ella Rouhier. imdb