A Marca da Maldade

Orson Welles aparentemente sempre esteve preocupado com a questão da lei, da justiça e da verdade. Tudo isso a partir de uma grande questão: os que zelam pela ordem e segurança são realmente de confiança? Ou quem vigia os que nos vigiam? Se formos considerar que a questão do poder foi tratada exaustivamente em seu clássico Cidadão Kane, esse A Marca da Maldade consegue desviar um pouco da rota sem perder a essência.

O filme inicia com uma longa e famosa sequência na introdução, ainda durante os créditos, em que vemos um casal de recém-casados — o oficial Mike Vargas (Charton Heston) e sua esposa Susan (Janet Leigh) — e um veículo cruzarem a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Porém, um atentado ocorre, e não fica muito certo qual dos lados é o responsável pelas investigações, o que chama ao palco o intrigante e implacável Capitão Hank Quinlan (Orson Welles), que possui o aspecto desgastado e que representa um homem da lei naquela terra inóspita, o que pode não ser algo tão honrado assim.

Mais uma vez com o uso de enquadramentos inusitados, sombras que passeiam com os personagens e o ângulo baixo, que evidencia, por exemplo, a ameaça de Quinlan sempre que ele aparece à tela, Welles não se intimida de soar graficamente expositivo em sua história, o que se por um lado funciona em muitas cenas, em outras lembra apenas um diretor brincando com técnicas de filmagem. A cena em que Vargas precisa usar um receptor de um microfone para uma “escuta ambulante” merece destaque, pois nota-se o preparo da construção da cena sem soar expositivo, mas orgânico.

Com uma conclusão ainda impactante, de uma coisa não podemos reclamar de Welles: seu perfeccionismo quase obsessivo gera trabalhos constantes e muitas vezes originais, mesmo que vez ou outra repetitivos em sua própria obsessão.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-01-31 imdb