A Marvada Carne

Wanderley Caloni, April 24, 2012

É muito fácil assistir à Marvada Carne sem compreender o mínimo de subtexto em uma trama que de tão simples parece totalmente despretensiosa. No entanto, se engana quem imagina que existem filmes que estão aí apenas para entreter. Todo filme reflete necessariamente uma opinião, um argumento e um ponto de vista. Partindo desse princípio, podemos afirmar que A Marvada Carne não só contém muito mais do que aparenta ter em sua superfície como tristemente seu conteúdo carece de exemplos na recente filmografia da comédia nacional, que aposta na exploração sexual e nas piadas contemporâneas vazias.

Vejamos, então. Nhô Totó possui apenas um sonho na vida: comer carne de boi. Para conseguir o que quer, resolve se mudar e encontra uma oportunidade de tornar seu sonho realidade se comprometendo com uma garota cujo pai supostamente pretende matar um boi para a festa de casamento. A garota, aliás, é Fernanda Torres, com seus 20 e poucos anos, já demonstrando seus trejeitos e talento para representar personagens caricatos mas verossímeis em seu contexto.

É com essa argumentação simples e com o título sugestivo que o filme consegue não apenas extrair humor das situações na roça e do falatório caipira típico da região como extrair um conteúdo inclusive de cunho político: como é possível que um cidadão que trabalhe tanto e viva em um país especialista em exportar carne (como um programa de TV inclusive consegue ressaltar o fato) não possa saborear, pelo menos uma vez na vida, um produto tão presente na economia local? Existirá termômetro melhor da desigualdade social do que quando os cidadãos de uma nação não podem sequer apreciar o que de melhor produzem?

Consequentemente, por sua desproporcional importância na “saga”, a carne é elevada à própria categoria de protagonista, pois é ela que move as ações de Totó do começo ao fim. Ações essas ritmadas por um competente trabalho de Alain Fresnot na função de montador e orquestradas pela somatória de canções regionais — incluindo aí uma bucólica participação de Tonico e Tinoco em uma espécie de baile da região — que criam o ambiente perfeito, aconchegante, que irá criar o contraponto dramático do terceiro ato, quando Totó experimenta o caos e a desorientação de uma “tal de cidade” e seu progresso desordenado.

Imagens e créditos no IMDB.
A Marvada Carne ● A Marvada Carne. A Marvada Carne (Brazil, 1985). Dirigido por André Klotzel. Escrito por André Klotzel, Cornélio Pires, Carlos Alberto Sofredini. Com Dionísio Azevedo, Adilson Barros, Chiquinho Brandão, Regina Casé, Tio Celso, Henrique Lisboa, Lucélia Maquiavelli, Geny Prado, Paco Sanches. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2012-04-24. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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