A Menina Sem Mãos

Oct 25, 2016

Imagens

Mais um desenho baseado em conto dos Irmãos Grimm. Na verdade, Jacob e Wilhelm Grimm, além de resgatar um pouco da origem das línguas germânicas e ajudar a fundar o estudo organizado de linguística, eles também coletaram a cultura desses povos, o que significa na prática suas crendices e valores, estruturadas em contos que eram contados de geração em geração. Ao salvar como escrita, eles conseguiram salvar boa parte da História no formato de folclore.

No entanto, é difícil muitas vezes induzir quais eram os valores implícitos em tais histórias. Muitas, se não todas, possuíam diferentes versões, o que faz todo sentido para a herança oral. Dessa forma, trabalhos como João e Maria ou Branca de Neve podiam se tornar universais por se tratar de histórias fáceis de perceber a moral, assim como as crenças mais modernas de derrubar sal na mesa ou abrir guarda-chuva trazer azar (ensinando as crianças a serem cuidadosas através de exemplos sobrenaturais; como podemos perceber, deus é apenas mais um desses exemplos).

Nesse caso, a história, uma animação, narra sobre um pai que arranca as mãos de sua filha a machadada. O motivo? Um demônio o enganou com riquezas. Mais uma vez, enganar camponeses pobres de forma fácil, prometendo riquezas, também era algo bem comum nas lendas (até porque alguém tinha que reforçar que era para o pobre não cobiçar a riqueza da nobreza, alcançada pelo uso da força e lavagem cerebral).

Note que esta é uma história bruta, não-polida, e que reflete bem a essência de contos antigos. Para descrevê-la visualmente, foi utilizada uma técnica que mistura rascunho de desenho com sombras, onde os traços marcam a presença de espírito, e a alma se mistura com as sombras, que são coloridas e mudam conforme o temperamento ou o valor dos elementos no processo (não à toa, o demônio sempre é desenhado com tinta preta, e não importa qual seu disfarce, sempre sabemos de quem se trata).

Assim como visualmente, a narrativa carece completamente de sutileza, e os eventos são jogados um depois do outro. Seus personagens são irrelevantes, apenas estão aí para ser ir de receptáculo de um conceito. São os antepassados do que seriam os estereótipos.

Falado em francês, tem uma fotografia interessante, que acumula texturas dos rascunhos em uma espécie de 3D (como a floresta cheia de sombras), e a trilha sonora começa clássica e termina moderna, quase um pop. Não é um tema muito feliz para a atualidade, onde as mulheres se tornam cada vez mais fortes e independente no Cinema. Aqui, temos a clássica donzela, ou o rascunho dela.

Wanderley Caloni, 2016-10-25. A Menina Sem Mãos. La jeune fille sans mains (France, 2016). Dirigido por Sébastien Laudenbach. Escrito por Jacob Grimm, Wilhelm Grimm, Sébastien Laudenbach. Com Anaïs Demoustier (La jeune fille), Jérémie Elkaïm (Le prince), Philippe Laudenbach (Le diable), Olivier Broche (Le père), Françoise Lebrun (La mère), Sacha Bourdo (Le jardinier), Elina Löwensohn (La déesse de l'eau). IMDB.