A Morte do Demônio

Um remake e uma revisita ao clássico trash da década de 80 (antes dirigido por Sam Raimi, o mesmo da trilogia Homem-Aranha), o longa de estreia de Fede Alvarez deixa a razão em segundo plano, mas por um motivo dos mais louváveis: tudo acontece tão rápido que se preocupar demais com isso tornaria a experiência intelectual demais. No fundo, queremos acreditar que tudo não passa de alucinações coletivas que logo irão se revelar uma fraude. Na verdade, rezamos por isso, pois a imersão ao horror da história é feito com tal profundidade que em determinados momentos fica difícil focalizar na tela o que está acontecendo.

A introdução rápida e eficaz mostra uma garota queimada pelo próprio pai (que logo em seguida atira em sua cabeça) em torno de pessoas que parecem pertencer a uma seita satânica. Através das palavras da que seria a feiticeira do grupo, no entanto, ficamos sabendo que o que de fato está ocorrendo é um exorcismo dos mais radicais. Esse pequeno prólogo já revela a que veio o filme, sem pudores de mostrar graficamente tudo o que acontece na tela, miolo por miolo.

Como é de praxe no gênero, algum tempo se passa e vemos o mesmo local revisitado pelo encontro de dois irmãos e seus amigos em uma cabana no meio de uma floresta de pinheiros (que é enfocada sugestivamente logo no início de cabeça pra baixo). A história principal gira em torno de Mia (Jane Levy), que resolve mais uma vez tentar se afastar das drogas que quase a levaram deste mundo. Com o apoio dos amigos — incluindo uma enfermeira — e seu até então ausente irmão (Shiloh Fernandez), o grupo tentará evitar ao máximo a saída do local antes do processo de desintoxicação que Mia precisa enfrentar.

O que não poderia ser previsto é que um livro encontrado no porão desperta o mal que até então parecia adormecido pelo ato visto no início do filme. Revemos o que parece ser a menina queimada, em uma sequência que já dá calafrios ao repassar na mente. E o que acontece em seguida merece existir simplesmente na imaginação visual dos espectadores. Ninguém deveria narrar o filme para seus amigos, pois eles deveria ver (e ouvir) por si mesmos. Irei poupá-los também de maiores descrições.

Uma pequena virtude que torna a narrativa acima da média dos adolescentes descerebrados que não conseguem fugir de uma cabana é a sacada dos jovens tentarem evitar que a amiga não resista à sua abstinência. A partir disso, e entendendo que o que está em jogo também é a longa amizade entre aquelas pessoas, qualquer ato, por mais insano que seja, tenta ser racionalizado. Nós acompanhamos essa tentativa tão desconsolados quanto eles, pois não vemos muito mais do que todos veem. A trilha sonora brinca com o terror em nossa imaginação. Ela participa dessa tentativa de fantasiar, mas sem drama. É leve em muitos momentos tensos. Sem medo de criar algumas cenas escatológicas e outras sobre mutilação e muito sangue, com o risco de impressionar de maneira episódica, sempre somos levados de volta para a questão central: o que fazer nessa situação?

A câmera, sempre esguia e disposta a empregar enquadramentos tortos e movimentos inusitados desde o início (como a floresta invertida já citada), nos força a olhar sempre para os cantos, o que fazemos de maneira inconsciente até mesmo quando sabemos que não veremos nada. Uma técnica batida, sim, mas que funciona extraordinariamente bem aqui, onde o sobrenatural é tateado aos poucos.

Se tornando levemente mais apelativo nos momentos finais, Evil Dead prova sua força ao conduzir-nos em um pós-clímax de maneira incrivelmente eficiente, ainda que para isso force a ação dentro dos lugares mais inusitados possíveis e sob uma forte e inusitada chuva. No entanto, isso é o que torna a experiência fantasiosa mais incrivelmente sedutora. E, caso ainda sobre um sentimento de trapaça, é bom lembrar que se existisse um demônio, seria ingênuo demais pensar que ele seguiria alguma regra.

O filme diverte e é trágico. Diverte pelas sequências absurdas, mas que prendem a atenção. É trágico se pensarmos que essas pessoas estão fazendo o que podem. Não são estúpidas como na maioria dos filmes, e seu pecado menor do grupo talvez seja o ceticismo generalizado, e nem isso é indesculpável (poderia ser explicado pela razão até determinado momento chave onde as coisas fogem completamente do controle).

Talvez seja uma ilusão essa de controle. Ele pode muito bem não existir nunca. Apenas vamos nos tocamos disso aos poucos, dolorosa e lentamente.

Quanto à lógica. Se a única questão em debate seria o livro (que poderia ter sido destruído) ele se resolve sozinho. O resto não merece maiores pensamentos. É uma força oculta e que pode se materializar de diferentes formas.

As interpretações dos atores não é nada demais, mas não prejudica. No entanto, se quiser ter em mente o que assolava tanto o grupo durante todo o tempo, lembre-se da cara de Mia ao retornar da floresta. Essa é a expressão do terror que felizmente ficou do outro lado da tela (espero).

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-05-09. A Morte do Demônio. Evil Dead (USA, 2013). Dirigido por Fede Alvarez. Escrito por Fede Alvarez, Rodo Sayagues, Sam Raimi. Com Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci, Jessica Lucas, Elizabeth Blackmore, Phoenix Connolly, Jim McLarty, Stephen Butterworth, Karl Willetts. imdb