A Mosca da Cabeça Branca

“The Fly” cria uma sensação de deslumbramento e fascinação pelo horror da possibilidade de acontecer na vida real o que vemos no filme. E o que vemos não é muito, e seus efeitos são irregulares. Porém, ao apostar no circunstancial em vez do puro deleite visual e gráfico, a obra não-datada da década de 50 mantém sua força dramática e a capacidade de fazer espectadores ainda hoje se pegarem pensando em como tudo isso é surreal, horrível e… fascinante.

Seus personagens são tão críveis quanto incríveis. Um casal de uma família financeiramente confortável, o marido é um cientista que solitariamente realiza experimentos que desafiam os limites da ciência no conforto do porão de sua casa. Excêntrico por sua própria natureza, sua mulher o apoia, e seu pequeno filho mostra sinais de uma inteligência pura também se desenvolvendo ao máximo, o que é adorável. O irmão do cientista é apaixonado pela cunhada, e em uma noite fatídica recebe uma ligação dela dizendo para ele que o assassinou em uma prensa industrial.

O desenrolar inicial do filme se aproveita de seu enredo para criar um mistério igualmente excêntrico. Uma mulher confessando o assassinato e se sentindo aliviada, mas que se mantém atenta para as moscas que voam em sua casa. Nada faz sentido até que finalmente voltamos no tempo e a história é contada em seus detalhes essenciais. Nada no filme se perde, e tudo aos poucos vai fazendo sentido, mas um sentido ainda muito estranho.

O realismo com que uma máquina de tele porte é descrita e os experimentos cada vez mais ousados de seu inventor se torna a síntese da curiosidade mórbida humana. A fotografia do filme é sóbria com cores que lembram ficção científica, mas as sombras e a trilha sonora flertam com o horror (e como não?).

Talvez nossas cabeças não estejam prontas para aberrações da natureza criadas por seres racionais (no caso, nós), mesmo que por acidente. Por isso “The Fly” colabora com a arte e com a nossa percepção da realidade bizarra mais do que qualquer show contemporâneo de efeitos visuais (e digitais) que os computadores de Hollywood conseguem produzir.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-11-28. A Mosca da Cabeça Branca. The Fly (USA, 1958). Dirigido por Kurt Neumann. Escrito por James Clavell, George Langelaan. Com David Hedison, Patricia Owens, Vincent Price, Herbert Marshall, Kathleen Freeman, Betty Lou Gerson, Charles Herbert, Eugene Borden, Harry Carter. imdb