A Mosca

2017/11/27

Poucos filmes da época de infância traziam tantas cenas marcantes quanto os filmes de David Cronenberg. E entre eles com certeza A Mosca é o que parece sintetizar o horror de seus filmes em um formato clássico e ideal. Porque se trabalhos como A Hora da Zona Morta, Um Método Perigoso e Cosmópolis são mais psicológicos e internos aos seus personagens, A Mosca traz o velho dilema e a velha maldição do homem e dos caminhos que a ciência pode tomar de uma forma mais universal.

Veja a história deste cientista, por exemplo. Por ficar enjoado em andar em qualquer meio de transporte (carros, avião e até seu triciclo quando criança), e sendo um gênio, ele cria uma máquina de teletransporte. No momento ela só funciona com objetos inanimados, pois existe algum erro de tradução do computador para nossa inconstante carne, fruto dos desejos mais loucos. Como criar uma máquina dessas.

A história é minimalista, se focando apenas nos personagens necessários. Basicamente três. E a narrativa caminha facilmente por eles, desde uma feira de ciências onde uma jornalista conversa com um inventor de algo que irá revolucionar o mundo até ela acompanhando o projeto em sua reta final: transportar o próprio cientista de um canto a outro canto do seu sujo, bagunçado e clássico laboratório em um prédio abandonado.

O que mais vem à mente por todo o filme é sua trilha sonora evocativa, clássica, que transforma os acontecimentos como se eles fossem inerentemente tráficos ou parte de algo trágico. O peso que a música de Howard Shore confere à história é importante para que ela não seja confundida com uma comédia de erros. O que ela não é. Se trata de um cientista bem-intencionado e do que acontece quando uma mulher entra em sua vida.

Jeff Goldblum Thor - Hagnarok mantém a sua persona incômoda do gênio incompreendido. Curiosamente esta sua persona será reciclada em forma de humor em Jurassic Park, mas aqui o humor é muito de situação. E Geena Davis, de Thelma & Louise, bom… é Geena Davis. Não é um filme de atuações, aqui. Como, aliás, todo sci-fi geralmente não é. Exceto se for um drama.

Mas não há dramas aqui. Apenas gore misturado com um horror psicológico inquieto. Conseguindo tornar os efeitos de maquiagem mais impressionantes que a própria música, e apesar de erros bobos nos efeitos visuais, o filme envelheceu muito bem. O conjunto da obra consegue ser impactante nos momentos certos, e acompanhamos a evolução do acidente do filme como algo natural, mas tragicamente inevitável.

Este é um filme puro, de sensações, que não possui muita lição de moral. É o horror pelo horror. E Cronenberg faz tudo muito bem. Depois que a transformação do que era um doce cientista empenhado começa se torna impossível desgrudar os olhos da tela, embora os espectadores mais sensíveis devem ter tentado fazer isso a todo custo. Mas a nossa luta interna entre o terror e a curiosidade mórbida é imbatível. E por ser algo natural talvez seja a que mais ecoa pelo nosso inconsciente.

★★★★☆ The Fly. USA, 1986. Direction: David Cronenberg. Script: George Langelaan. Charles Edward Pogue. David Cronenberg. Cast: Jeff Goldblum (Seth Brundle). Geena Davis (Veronica Quaife). John Getz (Stathis Borans). Joy Boushel (Tawny). Leslie Carlson (Dr. Brent Cheevers). George Chuvalo (Marky). Michael Copeman (2nd Man in Bar). David Cronenberg (Gynecologist). Carol Lazare (Nurse). Edition: Ronald Sanders. Cinematography: Mark Irwin. Soundtrack: Howard Shore. Runtime: 96. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Drama. Release: 16 April 1987. Category: movies Tags: netflix

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